sexta-feira, 21 de agosto de 2015

NOVO ENDEREÇO DO BLOG DO LUIS GIFFONI

CAROS AMIGOS,
MEU BLOG ESTÁ DE CARA NOVA E, TAMBÉM, COM NOVO ENDEREÇO:

                                                  www.luisgiffoni.com.br

ESPERO QUE GOSTEM. ATÉ LÁ.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

PAIXÃO DOENTIA


          O que é a paixão? Uma fera solta na selva da vida que devemos enfrentar com unhas, dentes e riscos? Ou negar a paixão seria a grande isca para a fúria do animal selvagem que habita o fundo da alma humana? 
          Henry James, escritor norte-americano que se tornou inglês vitoriano, trabalha essas questões em sua novela de oitenta páginas A Fera na Selva. E, em tão curto espaço, deixa-me perplexo com sua intuição, talento, capacidade criadora, além da profunda análise psicológica que antecipa e ultrapassa Freud.
          A Fera na Selva é um mergulho na complexidade da consciência que foge a regras, estudos e convenções. Trata do relacionamento de John Marcher e May Bartram, um casal inglês marcado desde a juventude pela impressão de que algo raro e estranho, ao mesmo tempo prodigioso e terrível, aconteceria a John, e ambos transformam essa premonição em motivação para a vida. Aguardar o evento extraordinário, que aparentemente nunca chega, marca o relacionamento de John e May. Esperam Godot com meio século de antecedência.
          John é extremamente egoísta. Ela se mostra algo simplória, porém, ao final da vida, atina que o grande evento havia ocorrido e reza para que o companheiro não o descubra, pois a revelação lhe abalaria a sanidade. Ao lado do túmulo de May, John acaba inferindo a verdade, final e absoluta: o vazio. Com esse enredo, singelo à primeira vista, Henry James tece uma trama envolvente, refinada, perspicaz, densa, que prende a atenção.
          Deve-se viver ou evitar a paixão? Para Henry James, ela vale a pena. Concordo. Uma boa paixão nos garante a vida. Nem que seja por um dia. O resto fica para a insanidade.      


domingo, 16 de agosto de 2015

Ninho

Espero. Desde a manhã, eu a espero numa angústia que se multiplica com as horas. Partiu ao encontro de outro. Receio que não volte, que meu corpo não mais a seduza. É quase noite, continuo nu, pronto para recebê-la. Passei perfumes que a fascinam, preparei-lhe os pratos favoritos, conservo portas e janelas abertas, busquei-a no jardim não sei quantas vezes, nenhum sinal. Espero. Cada vez mais aflito, eu a espero.  
Talvez esteja com medo de mim. Tentei estrangulá-la, é verdade, apertei-a até a pele arroxear e julgá-la morta. Resistiu ao assédio, lutou com bravura pela vida, recuperou-se – e descobri seu encanto.
Ódio e amor possuem origens comuns, frequentam o mesmo espaço. Tal o nosso caso. Dividimos a carne e o sangue. Ela, mais forte, manteve a personalidade; eu mudei, sem arrependimento. Desenvolvi instintos, resgatei paixão pela fragilidade, gozei a dor. Descobri a ternura da mãe pelo feto. Feto, afeto... Assustado com o comportamento, reagi. Esganei-a de novo. Em meio à investida, seus olhos negros moveram-se em desordem, afogados na tez de leite. A delicadeza me enfeitiçou, sucumbi por completo.
          Desde então, amo-a sem recaídas de assassino. Juntos dia e noite, incomoda-me apenas nas madrugadas: não tolera a separação do sono. Ante a solidão e meu silêncio, cutuca-me, à procura de penetração carnal. Acordo em sobressalto, logo me rendo a seus requebros. Calam fundo, porém matam-me de prazer.  
          Hoje de manhã, experimentei a dor do parto. De fato, ela nasceu. Rompeu-me as entranhas sem pressa. Primeiro surgiram os olhos, depois a cabeça e o tronco. As asas apareceram recolhidas, molhadas. O abdome emergiu por último. Livre para o mundo, esfregou as patas e bebeu de meu sangue. Jamais fui tão feliz.
          A pequena larva tinha evoluído dentro de mim até culminar na mosca que eu contemplava sobre a pele, ora verde, ora azul, com lampejos dourados, variáveis conforme o ângulo da luz. Sua carne era minha carne. Diferençávamos apenas na forma. Com olhar de incesto, admirei-lhe a beleza. Com orgulho de pai, quis exibi-la.
          Tomei, num momento fugaz, o choque da realidade: eu a havia criado na coxa, suportado a gestação, parido. Estava louco. Louco. A consciência da loucura destroçou-me. Ergui a mão, preparei o infanticídio, não consegui executá-lo. O instinto maternal prevaleceu. Eu a adorava mais que a qualquer outro ser. Sim, éramos um.
Por amor, decidi incubar seus ovos. Que ela me usasse como bem entendesse, eu aceitaria o padecimento. Que tivesse centenas de filhos, eu cuidaria de todos. Com a entrega, desejava apenas gerar vidas, alimentá-las, eternizar o milagre.
Tentei acariciá-la, agachou-se, ameaçou voar. Sim, deveria sair de casa, dar uma volta pela vizinhança, encontrar um companheiro para fecundá-la. Só assim me tornaria ninho outra vez.
Com cuidado, muito cuidado, encostei o indicador em sua cabeça. Galgou-o até a falange. Levantei-me devagar, abri a janela, lancei-a ao espaço. Em êxtase, acompanhei-lhe o voo nupcial. Pela primeira vez em setenta anos, senti-me útil ao mundo. Nunca é tarde, diziam com razão os antigos.
Desde a manhã, espero. Angustiado, eu a espero.


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O REI DA PICARETAGEM

      Sempre que vejo falsos religiosos pregando nas tevês com a maior cara de pau, penso nos 300 e tantos picaretas do Congresso Nacional que um conhecido político certa vez afirmou existirem no Senado e na Câmara. Uns e outros são farinha do mesmo saco. Uns e outros me remetem a Tartufo, um dos mais famosos personagens de Molière, o maior dramaturgo francês. 
      Tartufo é, também, o nome da peça que ele protagoniza, das mais encenadas do teatro. Tartufo é fingido, hipócrita, mentiroso, corrupto, chantageador, desleal, falso religioso, interessado apenas em tirar dinheiro daqueles a quem faz as mais devotas pregações. 
        A peça estreou em 1664, portanto há 351 anos, e continua atualíssima. Provocou violenta reação do clero da época, ficando proibida por alguns anos. Quem a visse ou encenasse foi ameaçado de excomunhão pelo arcebispo de Paris. 
       Leia Tartufo para ver como a canalhice não muda através dos séculos. Depois, ligue a tevê, escute atentamente os canais religiosos com apelo financeiro, analise as técnicas de persuasão utilizadas, em seguida compare os debates no Congresso com a verdadeira atuação, nos bastidores, de deputados e senadores. O resultado é puro teatro, o teatro de Molière, a falsidade de Tartufo até a exaustão. Uma tartufada sem fim. 
    Acontece que Tartufo, no final da peça, é desmascarado. No Brasil, isso ainda está longe de acontecer. Nossos Tartufos continuam depositários da moralidade. A cada dia que passa, Molière estremece no túmulo por nós.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O PAI DO DOM QUIXOTE

     Existe unanimidade quanto ao maior romance da língua espanhola : é o Dom Quixote, de Cervantes. Muitos também o consideram o marco inaugural do romance moderno. Deliciosamente picaresco e grotesco, Dom Quixote de la Mancha parodiou e criticou as histórias de cavalaria. 
     Mas haveria, na literatura espanhola, um antecessor dele, um germe que viesse a brotar com maior viço na cabeça de Cervantes? A resposta é sim. Há alguns. 
     Um deles é “A vida de Lazarilho de Tormes”, publicado em 1554, quando Cervantes tinha apenas sete anos. Com espírito picaresco e grotesco, Lazarilho de Tormes é quixotesco meio século antes de Dom Quixote. Ninguém sabe quem o escreveu, mas, pelas críticas que o pequeno livro faz, era um erudito, bem informado sobre as mazelas da época, sobretudo as da Igreja católica, principal vítima do autor. 
     No entanto, é na sátira à cavalaria que os dois livros mais se aproximam. Lazarilho serve a um escudeiro que tem o perfil de Dom Quixote, inclusive em algumas imagens que lhe são agregadas, como a triste figura, a sorte adversa, a defesa da honra, a falsa nobreza. O próprio Lazarilho, com seu apego à realidade, é um rascunho de Sancho Pança. 
      Isso mostra que, por mais originais que julguemos os autores, nenhum escapa às influências de seus antecessores. No entanto, alguns, através de seus temperos exclusivos, linguagem elaborada, metáforas incomuns e genialidade própria, levam a fama. Shakespeare que o diga. Desculpe o lapso. Cervantes que o diga.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

SOBRE O QUE ESCRITORES FOFOCAM?

      Sempre me perguntam, durante uma festa, sobre que assuntos os escritores conversam em seus encontros. A pergunta, na verdade, é outra. Querem saber se falamos apenas de livros. A resposta é não. Como qualquer outro grupo, falamos de tudo, com especial predileção pelos amigos ausentes. Ai dos ausentes. Sim, com frequência quem não está na roda entra na roda. A gente tem permissão. Como escritores costumam ser bons observadores, conhecem bem os detalhes da vítima, põem depressa a mão inteira na ferida. 
         Mas nem tudo é má-língua. Também fazemos elogios. O problema é que alguns colegas não dão motivo. Dia desses, tivemos uma boa razão para elogiar, e o fizemos. Um sisudo romancista, no auge da capacidade criadora, resolveu surtar no meio de um bar e incorporou uma pomba-gira ou um diabo, sei lá. A interpretação, de tão convincente, arrancou aplausos de toda a roda, com seguidos pedidos de bis, prometido para breve. Esse autor/ator deve estar gestando um personagem meio endemoninhado. Só pode ser isso. A outra opção é pior.
          Mas a resposta também pode ser sim. Sim, falamos de literatura. Assim como gostamos de escrever, também gostamos de ler. Muito. Discutimos, por horas, às vezes com veemência, nossas preferências. Na semana passada, recebi uma ótima dica de leitura. Um ficcionista de primeira aplicou-me o norte-americano Cormac MacCarthy, autor que explora a violência em seu limite. Escorre sangue de suas páginas. Recomendou-me o romance Meridiano de Sangue, obra-prima de MacCarthy. Já estou conferindo.

          Para amenizar nossos encontros, como os de qualquer outro grupo, contamos piadas. Afinal, quem resiste a uma boa piada? Dizem que a vida é a maior delas. Verdade ou mentira? Bom assunto para puxar no próximo encontro com escritores. O riso é sempre a coroação de um bom papo.    

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

BEBER LITERATURA


       Existe uma cidade onde se bebe literatura. Ela se chama Dublin, capital da Irlanda. Ali a literatura é cultura, entretenimento, motivo de orgulho e bons negócios. A cidade parece ter mais livrarias e bibliotecas que o Brasil inteiro. 
       Uma destas, a do Trinity College, oferecia mais de 200.000 volumes já no século 18, e a sala de leitura mede mais de 70 metros de comprimento. A gente se perde entre as prateleiras. O grande tesouro irlandês é também um livro, o chamado Book of Kell´s, um pergaminho dos Evangelhos com mais de 1000 anos, coberto de belas iluminuras. Uma obra de arte admirável.
       Num ambiente desses, não é de se estranhar que a Irlanda tenha tantos grandes autores, a começar por James Joyce, ícone do século 20, conhecido sobretudo por seu romance Ulisses. Sem falar, é claro, em Dublinenses.
        Mas também eram irlandeses Jonathan Swift, Oscar Wilde, Bernard Shaw, Samuel Beckett, o poeta Yeats e o também poeta Seamus Heaney, extraordinário, por sinal, ganhador do prêmio Nobel em 1995. 
         Por falar em Nobel, a pequena Irlanda, com menos de 7 milhões de habitantes, coleciona 4 em literatura. A tradição se traduz nos prêmios. De fato, não apenas em Dublin, mas em toda a Irlanda, se bebe literatura. E, junto, muita cerveja. Combinação perfeita.  

domingo, 9 de agosto de 2015

Entre a razão e a emoção, com qual você fica?

      O que nasceu antes, a razão ou a emoção? Se você respondeu a emoção, acertou. A emoção precede a razão. Quanto mais desenvolvemos as emoções, melhor raciocinamos. Muita gente sabe isso por instinto, mas faltava comprovar cientificamente. A comprovação foi feita por neurocientistas nos Estados Unidos, na Europa e aqui no Brasil.
    Agora, faço uma provocação: o que é a literatura senão pílulas concentradas de emoção? Dessa simples pergunta, conclui-se que quem lê bastante ficção raciocina melhor. Isso de fato acontece. Outro estudo sobre o cérebro explicou o motivo. Nossa mente não distingue bem a diferença entre a realidade e a fantasia escrita nos livros. Para o cérebro, são quase a mesma coisa o enredo de um romance e um episódio que estivéssemos de fato vivendo. Resultado: aprendemos muito com a fantasia, o que nos ajuda a raciocinar melhor.
     Como se essas vantagens já não bastassem, a leitura ainda lubrifica as estradas de neurônios que produzem os pensamentos, transformando-as em verdadeiras autopistas de grande velocidade. Tanto é verdade que, num estudo recente, constatou-se que os analfabetos e os pouco letrados não ganham o benefício da agilidade dos impulsos neuroniais.

      Uma pena que isso aconteça. Como se vê, o analfabetismo é duplamente cruel com as pessoas, social e mentalmente. Resumindo a questão: se você quer maior rapidez de pensamento busque o entretenimento. O entretenimento da leitura. Ninguém sai o mesmo de um bom livro.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

TRAVESSIA DOS ANDES: DESAFIO NA NEVE

           Imagine uma cordilheira dentro de outra, mãe e filhote. Imagine o filhote com dezenas de picos nevados a mais de cinco ou seis mil metros de altitude, agrupados num perímetro de apenas 165 quilômetros. Isso existe? Sim, existe. Existe no meio dos Andes peruanos, está separada do maciço central, tem características próprias e se chama Huayhuash. Atravessá-la é um desafio radical. Num único dia, saí de uma densa mata de quenuales a três mil e quinhentos metros de altitude, cheguei à neve a cinco mil e dormi a quatro mil, na puna andina. Encontrei por lá gente de trinta países, nenhum brasileiro. Ainda não descobrimos o lugar.
          Huayhuash é uma aventura que marca não apenas pela beleza, também pela diversidade de clima, de relevo, de plantas e animais, pelos lagos cristalinos, pelo estrondo das avalanchas, pelo silêncio da noite, pela pureza do ar, pelo vento que arrasta e congela. Nem pense em ir, se você gosta de conforto. Barraca é o único hotel. Estrelas, o triplo das que vemos em nossas cidades, são o cobertor.
          Huaywash tem o som, em inglês, de “why wash?” ou “por que se lavar?”. Ao percorrer suas trilhas, em média doze dias, é difícil tomar banho. Os riachos que descem das geleiras não nos convidam para mergulhos. De tão frios, trazem risco de hipotermia. Na única fonte termal que encontrei, ao pé de um vulcão, tive a companhia de uma nevasca que me roubou a coragem de sair do poço. Punha a cara fora da água, o cabelo congelava, e eu mergulhava de volta no quentinho.  
          Belas montanhas com nomes sonoros e estranhos compõem a paisagem, brancas de doer ao sol: Yerupajá, Jirishanca, Ninashanca e Siula. O Siula, aliás, foi palco da façanha relatada no livro “Tocando o vazio”, prova da enorme capacidade de resistência do ser humano.
          Huaywash, de tão remota e selvagem, foi esconderijo do Sendero Luminoso, o famoso grupo guerrilheiro peruano. Sendero Luminoso, ou Caminho Luminoso, seria um nome apropriado para a cordilheira. Ali se veem todas as possíveis nuanças de luz, sobretudo aquela que, lá no alto dos cumes, onde o ar rarefeito embevece o cérebro, parece brotar de dentro da gente e iluminar o presente, o passado e o futuro, revelando a imensa curtição de estar neste mundo. À luz de Huayhuash, a vida pulsa através de todos os tempos num único momento. Um eterno momento. Quem resiste a lugar desses?   

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

QUEM TEM MEDO DE UM ATEU?

     Há alguns escritores que, pela competência, permanecem bem vivos na literatura depois que morrem. Outros, ainda mais importantes, ficam pela competência e pela coragem. 
      Tal foi o caso do inglês Bertrand Russell, prêmio Nobel de Literatura em 1950, autor que deixou uma vasta obra, sem falar em sua atividade pacifista e no fato de ele ter sido um dos grandes matemáticos do século 20. 
       Um dos livros mais conhecidos de Bertrand Russell é Por que não sou cristão, onde ele aponta os motivos pelos quais não acreditava nas promessas do cristianismo e, mais além, expõe por que defendia o ateísmo. 
       Russell, grande lógico que era, destrinça os argumentos usados para as defesas do cristianismo e de Deus e chega a conclusões arrasadoras, tão arrasadoras que muito se escreveu contra ele. Muito mesmo. Alguns de seus debates foram antológicos. Os adversários se calaram.
       Imagino que, mesmo nos dias de hoje, um escritor brasileiro teria dificuldade de publicar aqui, em primeira mão, um livro tão contundente quanto Por que não sou cristão, em função de nossas tradições religiosas. Acontece que o livro se baseia numa palestra feita na Inglaterra em 1927, portanto há quase 90 anos. Provocou uma grande comoção ao sair, mas os ingleses bancaram a independência intelectual de Russell, assim como haviam feito com Darwin. 
       Talvez essa independência ajude a explicar por que tenhamos ficado no banco de trás, por tanto tempo, no bonde da história. Nos dias de hoje, em que o rancor religioso é pregado abertamente por determinadas seitas no Brasil, em que supostos "guerreiros de Jesus" conclamam para guerras santas, os alertas de Bertrand Russell soam absolutamente atuais. Vale a pena conhecê-los, independentemente da crença. Ateus não cobram dízimo quando tentam ajudar.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A MÃO INVISÍVEL

     Um bom livro não precisa, necessariamente, ser extenso. Nem precisa ser contemporâneo. Aqui vai um exemplo de livro antigo  que merece ser lido. Aliás, é um clássico que nenhum graduado em ciências econômicas pode ter deixado de ler. Trata-se de A Riqueza das Nações, de Adam Smith. Publicado em 1776, é tido como um grande suporte teórico do liberalismo econômico ou do capitalismo. 
         Para quem defende o liberalismo e o capitalismo ou para quem os odeia, Adam Smith e sua mão invisível do mercado, isto é, a mão invisível do interesse e do egoísmo, são indispensáveis para compreender o funcionamento da economia. 
         No entanto, há uma outra maneira de ler a obra: é descobrindo como o autor escocês cria sua tese e a defende, investindo seu talento nos argumentos e na persuasão. Assim se entende como essa mão invisível do Iluminismo ainda seduz tanta gente em pleno século 21. 
       Pertence à Riqueza das Nações a célebre frase, citada em quase todos os compêndios de economia: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que nós podemos desfrutar nosso jantar, mas do empenho deles em defender seus próprios interesses”. 
           Adam Smith, pai do capitalismo e do laissez-faire, defendia que a competição é o motor de uma sociedade produtiva, uma lição que nós, brasileiros, tardamos a aprender, iludidos por atalhos que não deram certo. Se nossos economistas tivessem de fato lido A Riqueza das Nações, talvez não amargássemos hoje uma terrível posição na competitividade entre as nações. Isso apesar do livro estar disponível há 240 anos. Pior ainda para nós: muita gente em outros países o leram e puseram em prática suas conclusões.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A MÚMIA PARALÍTICA

     Até hoje ignoro a grafia correta do lugar: Sakara, Sakkhara, Saquara ou apenas Sacara? Fica à beira do deserto da Líbia, no Egito, a uns cinco quilômetros do Nilo. Lembra dezenas de casamatas arrasadas por bombas. O inimigo, na verdade, se chama tempo. Em quase cinco mil anos, a ação das intempéries e do ser humano pôs abaixo essas construções, as pirâmides mais antigas conhecidas. São tumbas em degraus, para levar os primeiros faraós até a eternidade. Pelo menos, deveriam levar.
       Dizem que os astecas e os maias as copiaram com a ajuda de discos voadores, da Atlântida ou de força antigravitacional. Prefiro manter o tiquinho de lucidez que me resta e ficar de fora da polêmica. A precaução preserva a sanidade. Graças a esse expediente, safei-me de dois fantasmas em Sacara.
      Quem quiser conhecer as ruínas de Sakara deve pagar o ingresso, que dá direito à visita e ao guia que conta a história de cada monumento e de seu faraônico ocupante. Melhor dizendo, ex-ocupante, pois os ladrões não pouparam nem os cadáveres. Por séculos, na falta de Viagra, o pó de múmia fez o milagre. Coitados dos faraós. Em vez de subir aos céus, subiram outras coisas.
      À entrada de uma pirâmide, o guia, alegando cansaço, pediu-me para continuar sozinho pelo túnel que sumia terra abaixo. Grandes surpresas me aguardavam, avisou. As pinturas nas paredes me distraíram, fiquei entusiasmado, dobrei os corredores à esquerda e à direita, a claridade diminuiu, apagou. De repente, surgiram dois homens mal-encarados com lanternas iluminando o rosto. Gente ou fantasma?
      Alegaram ser guarda-pirâmides e exigiram vinte dólares para me autorizar a permanência. Mostrei-lhes o ingresso, com direito a visitar toda Sacara. Em resposta, Cosme e Damião abriram a camisa e expuseram dois punhais na cintura. Dourados, curvos, com cabo de madrepérola. Fiquei paralisado, mumificado. Múmia paralítica.  
      Passado o impacto, achei os dois argumentos de aço muito convincentes. Baratos até. Enfiei a mão no bolso, tirei uma nota, entreguei-a para os guardas. O sorriso de um emendou-se ao do outro, fizeram salamaleques, conduziram-me pela tumba, explicaram os afrescos, decifraram os hieróglifos, duas damas de tão gentis. Nada entendi, tampouco queria. Minha curiosidade que se danasse. Pensava apenas em sair da clausura o mais rápido possível.
      Meia hora mais tarde, enxerguei a luz do dia. Um alívio. Cosme e Damião agradeceram minha generosidade, renovaram as mesuras e evaporaram em direção à escuridão do túmulo.
       Ao narrar o acontecido para o guia, ele desconfiou do relato. Ninguém, exceto eu, entrara lá dentro. Será que eu tinha cara, além de paralítica, de múmia idiota? Pois é. Em Sakkhara, os fantasmas gostam mesmo é de dinheiro vivo. Ou dinheiro dos vivos, tanto faz.








domingo, 2 de agosto de 2015

À SABEDORIA DAS BARATAS, COM MUITO RESPEITO

     Na década de 1960, no meio do deserto de Gobi, foram encontrados os fósseis de dois dinossauros em plena luta, um com os dentes cravados no pescoço do outro. Estavam tão ligados no combate que se esqueceram do perigo maior que os rondava: a enorme tempestade de areia que os soterrou. Na época, uns oitenta milhões de anos atrás, os mamíferos, pouco maiores que ratazanas, ensaiavam os primeiros passos na escalada evolutiva. Prever, então, a existência do ser humano seria um exercício de futurologia tão ingrato quanto adivinhar hoje que espécie dominará a Terra daqui a outros oitenta milhões de anos, se é que haverá uma. No entanto, qual dos animais existentes teria as melhores chances de sobreviver?
     A humanidade se atribui uma importância excessiva. Nossa vaidade oscila entre o ufanismo por um mundo criado da noite para o dia para nosso deleite à vergonha de contaminarmos e destruirmos o frágil ecossistema. Os extremos demonstram que continuamos a medida de nós mesmos e, de quebra, do resto. Encaremos a realidade: não somos o centro de tudo, tampouco o ponto ômega da evolução. Somos uma espécie ainda amaciando o motor, se comparada à quilometragem das baratas, matusaléns anteriores aos dinossauros. Não temos um futuro certo e sabido, apesar do afinco que dedicamos ao amanhã.
     Gozamos, hoje, de vasto domínio sobre o planeta, longe de ser absoluto como sugere muita gente. Nossas interferências apequenam-se ante a força da natureza. Numa única erupção, o vulcão Pinatubo poluiu a atmosfera mais que todos os automóveis e fábricas juntos. Um terremoto de magnitude nove na escala Richter pode devastar mais que a soma dos arsenais nucleares. Um acréscimo de apenas cinco por cento na produção de energia pelo Sol bastará para nos torrar. Nossas bombas não seriam tão eficientes.
     Atuamos no varejo, tanto para construir quanto destruir. As espécies vêm e vão ao sabor de eventos que só podemos imaginar. Estamos todos a bordo da Terra, abelhas, jabuticabeiras, enguias e seres humanos. Se uma espécie não é, intrinsecamente, melhor que a outra, isso não significa que devamos abrir mão de nosso apego à sobrevivência. Se apenas uma puder subsistir, que seja a nossa.
     Para incrementar nossas chances de êxito, sugiro um respeitoso exame das baratas. Como disse, elas estavam por aí quando aqueles dois dinossauros se engalfinharam no deserto de Gobi. Qual o segredo das baratas? Covardes, fogem sem qualquer constrangimento ante um chinelo, não são muito chegadas a elucubrações (exceto aquela do Kafka, bastante influenciada pelo convívio humano), comem o que aparece, adaptam-se ao frio e ao calor e, a julgar por seu número e tamanho em alguns bares e restaurantes brasileiros, não correm perigo de extinção. Em suma, seu segredo é viver e deixar viver, receita simples e eficiente, fácil de aprender. Sabem que a natureza, com suas experiências evolutivas, é o grande laboratório. Estão sempre de olho no que vem por aí. E chegam junto.
     Eu apostaria nas baratas como a espécie com maiores possibilidades de herdar a Terra no futuro distante. Afinal, possuem vasta experiência com o planeta, não se encheram de ufanismos, respeitam as leis básicas da vida. Convém seguirmos seu exemplo. A sobrevivência é o grande prêmio que uma espécie pode ganhar. Às vezes, com toda a nossa sabedoria, acho que ainda não aprendemos isso. Às vezes, com toda a nossa estupidez, acho que nunca aprenderemos.  



sexta-feira, 31 de julho de 2015

A Lua, minha sombra e eu: três solidões

     Como se fala da China... Queda da bolsa de Xangai, redução das importações, economia em crise, falta de democracia, capitalismo selvagem... Pouco se fala de sua poesia. Ela teve um chamado "período de ouro" durante a dinastia T’Ang, que governou o país entre os anos 618 e 907, desenvolveu a impressão de livros com blocos de madeira e expandiu a Rota da Seda rumo ao Ocidente. 
       A China venera até hoje esses poetas que viveram há 1300 anos. Eles são muitos, mas dois se destacam: Li Po e Tu Fu, grandes amigos, bravos guerreiros que arriscaram a vida em muitas batalhas, beberrões incorrigíveis e, apesar dos estilos diferentes, mestres de uma poesia visual, à flor da pele.       
      Li Po e Tu Fu escreveram verdadeiras pinturas, cheias de cor e detalhe, capazes de penetrar fundo na natureza e na alma. Uma pena que suas obras percam a sonoridade interna com a tradução. Tu Fu esmerou-se na descrição dos efeitos da guerra. Ele diz:
          
          Um cavalo branco aparece do nada,
          Esbaforido de medo,
          A sela vazia atravessada por 3 flechas.
          Onde está o cavaleiro,
          Para que a vã coragem
          Que lhe ofereceu o calor da guerra
          E o levou ao frio da morte?
          
          Li Po gostava do vinho e da Lua. Uniu esses prazeres numa bela composição:
         
          Entre as flores do jardim,
          Copo à mão,
          Bebo sozinho.
          Os amigos partiram,
          Não sei onde estão.   
          Ergo um brinde à Lua cheia.
          A Lua, minha sombra e eu,
          Três solidões.

     
       Cecília Meireles legou-nos algumas traduções de Li Po e Tu Fu, três vezes inspiradas pois junta sua criatividade à dos dois poetas chineses. Não são três solidões. São três encantos. 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

A ETERNIDADE, O POETA E O QUASAR

     A mente humana há muito se ocupa com a eternidade: se existe, o que significa, qual o caminho até ela. As eternidades são muitas, algumas bastante breves. Para diversos insetos, como as efeméridas que se tornam adultas no quarto minguante, a Lua cheia talvez seja o exemplo acabado do tempo infinito, pois morrerão antes do crescente. E para nós, o que é a eternidade? Uma espera aborrecida de uma hora no ponto de ônibus no meio da chuva, os dias que não passam entre um e outro encontro de amantes, um século, um milhão de anos?
      O título desta crônica não esconde uma mensagem cifrada. Li Po (701-762) é um grande poeta chinês da dinastia T’ang que conseguiu, através da justaposição inspirada de ideogramas, a ambiguidade de vários poemas sobrepostos em cada um deles, todos merecedores de permanência na memória comum da humanidade. Hoje, doze séculos após sua morte, ainda podemos captar seu estado de espírito em meio à natureza que tanto amou, na vizinhança da montanha Tai-t’ien:

“À margem do riacho, não escuto os sinos do meio-dia.
Bambus selvagens retalham o firmamento.
Cascatas dependuram-se no abismo verde.
Ninguém sabe por onde você anda.
Triste, busco apoio no tronco de um pinheiro”.

     Seria Li Po eterno?
     OQ 172 designa um dos mais distantes objetos celestes já detectados, um quasar nos confins do Universo, pertinho do Big Bang onde tudo nasceu. Sua luz partiu quando não existiam seres humanos, tampouco a Terra ou o Sol. A longa viagem avermelhou os fótons, enfraqueceu-os, tornou-os quase imperceptíveis. Eles testemunham, entretanto, uma experiência que ainda não compreendemos direito, a do espaço e do tempo condensados numa partícula ínfima que, à semelhança de um poema de Li Po, fomenta múltiplas interpretações. O quasar talvez não mais exista há bilhões de anos, porém só agora tomamos conhecimento de sua longínqua presença. É como descobrir ainda bebê um velho que já morreu.
      OQ 172 seria um símbolo do eterno?
      A eternidade não mora apenas na poesia ou na física, mas em tudo que nos encanta. A aventura humana, apesar de curta em termos cosmológicos, está cheia de exemplos. E a vida se torna mais prazerosa à medida que penetramos nos meandros dessa aventura. Cada pessoa que nos precedeu legou sua eternidade, e nossas próprias experiências construirão outras. Por que não viver com gosto, o nosso e o alheio?
      Em outro poema, Li Po acompanha um amigo que se afasta num barco:

“A sombra de sua vela solitária desvanece no vazio
Agora resta apenas o Grande Rio a caminho do céu”.
     
      Este Grande Rio talvez não consigamos entender durante a vida, porém Li Po e OQ 172 são trechos dignos de percorrer, nos quais a arte e a ciência – filhas gêmeas do gênio humano – nos ciceroneiam através de mundos novos e, ao mesmo tempo, antigos. Melhor dizendo, mundos eternos. 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O ESCRITOR E SEUS MEDOS

     Sempre amarelo diante da página em branco. Ao encerrar o dia sem uma linha aproveitável, avermelho. De raiva. Temo o esgotamento da fonte, a incompetência, a chuva no molhado. Dar vida ao vazio do papel, ou melhor, enchê-lo com um texto no mínimo razoável é o pesadelo do qual nunca me livro. Persegue-me até depois que durmo. Sonhei com um robô que, ao ser ligado, começava a escrever histórias e só parava quando estavam prontas, sem o desgaste da procura de palavras, personagens, situações, enredos.
     Robotizar a escrita seria uma solução para meu medo? Nunca. O invento acabaria com o melhor da festa, o instante em que a cabeça e a ideia entram em fase, se fundem, e o mundo se ordena. Ele me roubaria o momento da síntese, da captura, do insight, o átimo de discernimento que faz toda a diferença. Quem cria sabe como a sensação é prazerosa. Pode vir de um poema, uma crônica, uma solução arquitetônica, um diagnóstico médico. O processo culmina – ou apenas se inicia? – no mesmo eureka neuronial.
      De posse do esboço, como fixá-lo na tela do computador? Como transformar lampejos em palavras, como transpor a rapidez da química mental para a lentidão da escrita? Como agarrar a inspiração antes que escape? Como traduzir a amplitude da emoção para a rigidez do símbolo? Como conduzir o estouro da boiada para o curral do texto? Bem, nessa hora, não há berrante que ajude. Nem berro. Não conheço outro caminho senão o da experiência e do erro. Cerca-se daqui e dali, rodeia-se, fecha-se a porteira com muita rês do lado de fora. Invejo quem consegue, na primeira investida, capturar o rebanho. Em desespero, concluo, às vezes, que jamais fui vaqueiro.                
       Livro pronto, enfrenta-se o editor, uma pessoa à procura de obras-primas, ou melhor, bom entretenimento, ou melhor ainda, best seller. Coisa fácil, sem reflexão. Tece elogios para Michael Crichton, lamenta que o escritor brasileiro não procure apenas divertir, acha-o muito literário. O leitor, contudo, não é bobo. Sabe que a literatura significa muito mais que soltar tiranossauro num parque.
       Depois de publicado, o livro vai para uma feira, ao lado de centenas de milhares de outros. A pergunta sempre me ocorre: há algo que ainda não tenha sido escrito? Por que me dedicar à ficção num mundo aferrado a realidades muitas vezes mais desvairadas que o romance mais imaginoso?
      Acredito que existem respostas. Cada autor traz uma experiência exclusiva, sintetiza as visões anteriores do ser humano e acrescenta o tempero da época em que vive. Deixa uma receita modificada, cujos ingredientes recém-adicionados costumam ressaltar sabores já esquecidos. Além disso, este século nunca aconteceu antes, portanto a obra é um testemunho de nosso tempo para o futuro. Se vai ficar, não importa. Há que se escrever.
        Já disseram que ser escritor é pior que praga de mãe. Não concordo. É uma atividade como qualquer outra e proporciona prazeres adicionais. Por exemplo, minha alegria neste momento, quando encerro a crônica. O ponto final sempre significa uma vitória, de Pirro às vezes. Perco o amarelo paúra, começo a recuperar a cor. Superei, de novo, a síndrome do papel em branco.
        Passo agora a pensar em sua confortável situação, caro leitor. Você aprova ou rejeita o texto, para no meio, põe de lado, sem levar em conta a energia despendida ou meu medo. Posso afirmar: escrever exige mais esforço que ler. Mas há quem goste do ofício. Sou um desses.

terça-feira, 28 de julho de 2015

RELIGIÃO PARA TODOS OS CREDOS

Para descobrir a religiosidade existente atrás do corriqueiro, a receita é simples: basta um jantar em casa. Sozinho. Para começar, feche as janelas, diminua a luminosidade, vista uma roupa confortável. Prepare sua comida, um macarrão por exemplo. Escolha o vinho de sua preferência. Acenda velas e incenso suave. Ponha para tocar um disco de música antiga, como do compositor quinhentista Josquin des Prés (ou Desprez). Pronto, está montado o aparato para a travessia, ou melhor, a religação com você mesmo e a nossa espécie.
Saboreie sem pressa a massa, o vinho, perceba sua cor rubra ou dourada contra a chama, a música, os odores, a penumbra, o contato da boca com a comida e a bebida, descubra o peso do talher, fique atento à mastigação. Pense nas centenas de pessoas que contribuíram para seu prazer. Quantos plantaram e colheram o trigo, construíram sua casa, desenharam, fabricaram e transportaram a baixela, montaram o aparelho de som, fizeram as velas, podaram as videiras, quantas horas Josquin investiu até encontrar a combinação correta das notas musicais. As pessoas se uniram através dos tempos para possibilitar seu mergulho na plenitude, isto é, em você mesmo. Gente famosa e anônima, viva e morta, através de seus ofícios, rendeu-lhe uma homenagem, sem conhecê-lo, sem saber que você viria a existir.
Conscientize-se do elo entre os séculos, abrace o coração da festa, desvele a origem desses requintes, o gênio humano.
Integre-se agora, sem receio, ao caudal do melhor lado de nossa natureza. Descubra que continuamos a medida e o sentido de todas as coisas. Eis a religiosidade por excelência. Põe em contato as gerações passadas, presentes e futuras, numa cadeia de fraternidade e de partilha que exalta nossa grandeza e nossa fragilidade. Liga-nos às demais espécies e ao mundo. Aumenta nossa responsabilidade. Perceba o paradoxo: se o experimento der certo, talvez você se sinta maior ao se transformar em simples ponte entre épocas, átimo de consciência na enormidade do tempo.
O que é isso? Transcendência, delírio, epilepsia do lobo temporal? Quem sabe? Pelo sim, pelo não, vale a pena tentar religar-se à própria espécie, um gesto importante, mas pouco praticado. Entre a vastidão e o nada, paira a vida. Entre as possibilidades e as incertezas, colhemos os dias. Bom apetite.


segunda-feira, 27 de julho de 2015

A VIAGEM DE GOETHE PELA ITÁLIA

            Sempre que um documentário ou telenovela focaliza a Itália e tanta gente sente vontade de viajar à terra de Dante, lembro-me de outro grande poeta, o alemão Goethe, que, logo após completar trinta e sete anos, percorreu o país, de Bolzano à Sicília. Goethe legou-nos um suculento relato do que viu, ouviu, refletiu e aprendeu. Mais que um ótimo livro de viagem, trata-se de um louvor à cultura e à inteligência. Muita cultura e muita inteligência.
            Enquanto atravessa a península, o futuro autor de Fausto fala da arte, das festas, dos costumes, da paisagem, da história, de muita coisa que já se perdeu, faz especulação científica, antecipa a evolução darwinista com ensaios sobre uma planta primordial, a Urpflanze, mãe de todas as outras, discute o trabalho de pintores, escultores, arquitetos, poetas e analisa a própria escrita feita ao longo do périplo até a ponta da bota.
            O livro Viagem à Itália 1786 a 1788 resume a Itália e a cabeça de Goethe, gênio que por tudo se interessava. Com mente aberta, ele confessa que perdia a fala ou chorava quando se emocionava, como ocorreu em Nápoles. Ali, depois de repreender um rapaz que cantava muito desafinado, levou um puxão de orelha do jovem, que, com o polegar em riste, lhe disse: “Perdão, senhor, mas esta é a minha pátria”. Em outra ocasião, diante do viço de plantações bem adubadas, comentou com ironia: “Esterco faz mais milagre que santo”.
Não suspendeu o roteiro nem depois de quase ser preso, no lago de Garda, acusado de espionagem para a Alemanha. Hoje em dia, as cidades à beira do lago mostram com orgulho os locais onde comeu, dormiu, pintou, além de inventar histórias sobre sua breve passagem. Construíram até museus.
            Talvez a viagem tenha inspirado sua obra maior, Fausto, pois ele admite que, em Nápoles, o terrível e o belo se anulam para produzir indiferença, e o napolitano seria outro homem, caso não se sentisse encurralado entre deus e satanás.
            O país que Goethe viu há mais de duzentos e vinte anos ficará, graças ao relato Viagem à Itália. No futuro, o livro continuará servindo de guia e introdução a quem deseje conhecer a terra de Dante, aliás, uma ótima pedida. Duplamente. Goethe também é sempre uma ótima pedida. Nunca envelhece.     


sábado, 25 de julho de 2015

O FILHO QUE NÃO TRANSAVA

           Ele se orgulhava do filho, musculoso, bonito, alto, bem dotado, o tipo que, em sua longínqua adolescência, gostaria de ter sido. O garotão o redimiria do passado, realizando a fantasia nunca concretizada: tornar-se o maior benemérito da humanidade, espalhando seus genes pelos cinco continentes. Ou eram seis? Geografia nunca fora seu forte. Tampouco os predicados de garanhão.     
      Nem tudo é perfeito. O rapaz, aos dezoito anos, não tinha namorada, sequer ficava. Quer dizer, ficava, sim. Em casa. Chegava da aula e se enfurnava no quarto, grudado naquela droga de internet. Internet em vez de paquera no auge da juventude, quando a testosterona está saindo pelos poros, alguém entende? Só parava para comer, malhar nos aparelhos caríssimos que, ninguém entendia como, comprara com a pequena mesada e, terrível pesadelo, pegar no vídeo, todas as tardes, filmes de Rambo, UFC, músculos e afins, gosto no mínimo duvidoso para um homem de fato, para não levantar dúvida pior. Onde errara, Deus do céu?    
     Resolveu ir à luta. Comprou várias revistas masculinas, chamou o moço no canto, entregou-as com um comentário seco: “De homem pra homem, filho. A gente conhece nossas necessidades”. O rapagão deu uma gargalhada e tachou-o de idiota. Por São Judas, o pesadelo era mais sério do que parecia!
     Conversou com a esposa, ela perdeu o sono, às quatro da manhã arrumou a solução: “Amor, por que você não leva ele pra fazer a coisa... bem, você entende, né? Antigamente todo pai levava”. Aceitou, em nome da honra da família.
     Com a desculpa de ir ao supermercado, carregou o mancebo pela avenida onde senhoritas quase nuas comiam graças ao corpo, deixando-se canibalizar, em termos. O danado descartou-as, uma a uma: gorda, magra, traveco, feia, oxigenada, despencada, velha. Deus do céu, que pesadelo!
     Com o incentivo da mulher, o pai radicalizou. Nos anúncios de relax, escolheu uma “universitária, dezoito aninhos, nova no ramo, liberada para realizar seus sonhos”. Ligou, conferiu se não havia propaganda enganosa, viu as fotos na internet. Era ela! Melhor, ai, muito melhor que a própria esposa na lua de mel. Pagou adiantado, o dobro, para compensar o exagero de recomendações. Arrastou o filho ao apartamento da profissional, obrigou-o a ficar, disse que o aguardaria no carro, que não se apressasse. Afinal, a primeira vez a gente nunca esquece.
     Duas horas mais tarde, o garanhão apareceu, radiante: a donzela também adorava o youtube, viajaram por muitos sítios interessantes, até a convidara para passar depois lá em casa. Quanto à coisa, nada. Nadinha. “Pô, pai, relaxa, tô noutra”.
     O pobre genitor entrou em desespero, subiu ao apartamento da contratada, pediu o dinheiro de volta, ouviu um não, porém, bem sensual, ela o abraçou: “Posso devolver agora, coroa gostoso, mas só se for em serviço”. Todos sabem como anda difícil arranjar qualquer trocado hoje em dia, com essa crise toda. Ele não podia perder a pequena fortuna assim de graça. Bem, já que estava pago... Demorou cinco minutos, incluindo tirar e pôr a roupa.
     No dia seguinte, caíram duas bombas na casa: a universitária apareceu para navegar na droga do computador e escancarou o sorrisinho cínico de quem podia contar tudo. Minutos depois, a mulher do dono da videolocadora, invadindo a sala aos berros, confessou que o rapaz ia ser pai mais uma vez, mas agora o maridão descobrira tudo – e vinha pela rua com um revólver na mão. 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A VERDADE DAS MENTIRAS

      Ser leitor é muito mais saboroso que ser escritor. Os livros alheios são mais de 40 milhões, cada um nascido numa cabeça diferente, cada qual com sua própria contribuição à cartografia do mundo e do ser humano. Em cada obra, existe um universo novo, exclusivo. Já a gente, enquanto escritor, bem, a gente se conhece, sabe como nossa cabeça funciona, sabe que tipo de livro produzirá. Eu, por exemplo, quando leio a primeira linha de um romance meu publicado, sei exatamente como terminará. Sou muito previsível... Daí minha preferência pela leitura. Gosto da surpresa e do deleite que outros me proporcionam e chegam prontos à minha mão. Gosto da variedade temática, do olhar diverso, do conflito de opinião.
            Essa paixão pelo trabalho alheio também domina o peruano Mario Vargas Llosa. Ele adora ler. Lê muito e de tudo, sobretudo os grandes romancistas. A prova disso está em seus ensaios a respeito de publicações que o influenciaram como Madame Bovary, de Flaubert. Ele admite abertamente a influência. Sem medo.
            Sua maior declaração de amor à literatura se encontra, porém, em seu livro A Verdade das Mentiras, no qual examina trinta e seis de suas obras favoritas. A paixão funde-se à erudição, perspicácia e admiração com que se debruça sobre autores como Hemingway, Faulkner, Canetti, Orwell, Moravia, Malraux, Tabucchi, Lampedusa, Solzhenitsyn, Fitzgerald, Conrad e Joyce, todos comentados, comparados e criticados, demonstrando que a literatura continua bela, viva e criativa. É a arte das artes.
            A Verdade das Mentiras serve, ainda, de excelente guia para o leitor se aproximar dos grandes mestres e escolher aqueles que lhe pareçam mais atraentes e, quem sabe, também se apaixonar por eles.

            Nessa comunhão de paixões, ao imergir no universo da boa ficção, na fantasia que nos faz refletir sobre nós mesmos e nossa condição humana, você compreenderá por que ser leitor é melhor que ser escritor. Em nossa fragilidade e finitude, quando lemos, por momentos exponenciamos nossa consciência e nos tornamos eternos. Carpe diem. A finitude é curta.