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quarta-feira, 29 de julho de 2015

O ESCRITOR E SEUS MEDOS

     Sempre amarelo diante da página em branco. Ao encerrar o dia sem uma linha aproveitável, avermelho. De raiva. Temo o esgotamento da fonte, a incompetência, a chuva no molhado. Dar vida ao vazio do papel, ou melhor, enchê-lo com um texto no mínimo razoável é o pesadelo do qual nunca me livro. Persegue-me até depois que durmo. Sonhei com um robô que, ao ser ligado, começava a escrever histórias e só parava quando estavam prontas, sem o desgaste da procura de palavras, personagens, situações, enredos.
     Robotizar a escrita seria uma solução para meu medo? Nunca. O invento acabaria com o melhor da festa, o instante em que a cabeça e a ideia entram em fase, se fundem, e o mundo se ordena. Ele me roubaria o momento da síntese, da captura, do insight, o átimo de discernimento que faz toda a diferença. Quem cria sabe como a sensação é prazerosa. Pode vir de um poema, uma crônica, uma solução arquitetônica, um diagnóstico médico. O processo culmina – ou apenas se inicia? – no mesmo eureka neuronial.
      De posse do esboço, como fixá-lo na tela do computador? Como transformar lampejos em palavras, como transpor a rapidez da química mental para a lentidão da escrita? Como agarrar a inspiração antes que escape? Como traduzir a amplitude da emoção para a rigidez do símbolo? Como conduzir o estouro da boiada para o curral do texto? Bem, nessa hora, não há berrante que ajude. Nem berro. Não conheço outro caminho senão o da experiência e do erro. Cerca-se daqui e dali, rodeia-se, fecha-se a porteira com muita rês do lado de fora. Invejo quem consegue, na primeira investida, capturar o rebanho. Em desespero, concluo, às vezes, que jamais fui vaqueiro.                
       Livro pronto, enfrenta-se o editor, uma pessoa à procura de obras-primas, ou melhor, bom entretenimento, ou melhor ainda, best seller. Coisa fácil, sem reflexão. Tece elogios para Michael Crichton, lamenta que o escritor brasileiro não procure apenas divertir, acha-o muito literário. O leitor, contudo, não é bobo. Sabe que a literatura significa muito mais que soltar tiranossauro num parque.
       Depois de publicado, o livro vai para uma feira, ao lado de centenas de milhares de outros. A pergunta sempre me ocorre: há algo que ainda não tenha sido escrito? Por que me dedicar à ficção num mundo aferrado a realidades muitas vezes mais desvairadas que o romance mais imaginoso?
      Acredito que existem respostas. Cada autor traz uma experiência exclusiva, sintetiza as visões anteriores do ser humano e acrescenta o tempero da época em que vive. Deixa uma receita modificada, cujos ingredientes recém-adicionados costumam ressaltar sabores já esquecidos. Além disso, este século nunca aconteceu antes, portanto a obra é um testemunho de nosso tempo para o futuro. Se vai ficar, não importa. Há que se escrever.
        Já disseram que ser escritor é pior que praga de mãe. Não concordo. É uma atividade como qualquer outra e proporciona prazeres adicionais. Por exemplo, minha alegria neste momento, quando encerro a crônica. O ponto final sempre significa uma vitória, de Pirro às vezes. Perco o amarelo paúra, começo a recuperar a cor. Superei, de novo, a síndrome do papel em branco.
        Passo agora a pensar em sua confortável situação, caro leitor. Você aprova ou rejeita o texto, para no meio, põe de lado, sem levar em conta a energia despendida ou meu medo. Posso afirmar: escrever exige mais esforço que ler. Mas há quem goste do ofício. Sou um desses.

terça-feira, 14 de julho de 2015

AS CARTAS NÃO SÃO JURÁSSICAS


                                                                       Para Caio Riter

Admiro as cartas longas, sem rumo, esparramadas, igual conversa de botequim. Admiro a capacidade de transformar o assunto mais corriqueiro em arte e fazer a vida saltar para dentro das palavras. Crônicas para uma só pessoa.

Sou uma lástima com as cartas. Por mais que me esforce, não sei escrevê-las. Além da falta de talento, fico telegráfico nas observações, consequência talvez dos emails, um vício. Minhas frases rangem como um edifício prestes a desmoronar, depois de empilhadas fora de ordem e de prumo. As idéias com frequência se superpõem, patinam, derrapam, sem saber para onde seguir. Repito-me na falta de assunto.

Considero as verdadeiras cartas entidades misteriosas. Vestem as mais diversas roupagens. Ora parecem monólogos endereçados aos outros ou diálogos de loucos consigo mesmos, ora almas que se autopsicografam, ora corações transplantados para os miolos ou confissões de seres que nos habitam quando a vigília cochila. Veículos de prazer, dor, amizade e intercâmbio, abordam desde a declaração de amor até o lamento do suicida. Possuem o perfume genuíno de nossa humanidade.

Hoje nos dedicamos pouco às cartas, porque talvez demandem paciência e reflexão, dois bens escassos. Falta, também, quem nos escute com atenção. Vivemos sob o signo da pressa, à qual o telefone e o computador atendem tão bem. Afastamo-nos de nós mesmos e dos outros quando nos imaginamos mais próximos. Próximos dos corpos, distantes do coração. Revolver profundezas saiu de moda.

Por esse motivo, um amigo que cultiva as cartas se julga jurássico. Escreve-as “para se dar conta de nós, do mundo, dos sentimentos e sensações que se vão dentro de nós, empurrando-nos para a frente... e comungam de uma mesma vontade de encher o mundo de boas perplexidades”. De tão inspirados, seus textos me parecem estar por aí desde sempre, aguardando quem os captasse. Sua caneta é a antena de recepção.

 Invejo-lhe a capacidade de imergir na condição humana através da trivialidade, de falar da alma com a leveza de quem brinca com um dominó de palavras. Cartas não são jurássicas, tampouco seus cultores têm a ver com dinossauros. Elas sobreviverão ao cometa da pressa e das mensagens curtas, escaparão à cratera da insensibilidade. Porque nos conduzem, pelas trilhas de nossa humanidade, ao horizonte de nós mesmos.

                                                                                 


terça-feira, 30 de junho de 2015

SERES FANTÁSTICOS

     Por amor à fantasia, invisto o tempo em histórias que arranco do baú da imaginação. Elas estão lá dentro dos miolos, quietinhas, à espera de um estímulo para eclodir. Ofício esquisito: quanto mais se delira, mais se é julgado competente. Tanto melhor. Estou no lugar certo.
     Toda mente precisa subtrair-se ao dia a dia, tirar o pé do chão, carece voar à frente do tempo. Por isso, o fantástico costuma preceder a realidade, quando não a inventa. Todos lutam para torná-lo palpável, quase sempre com êxito. Seres fantásticos nos cercam.
     Sou, contudo, um desafortunado. A fantasia coletiva me discrimina. Nunca vi as criaturas maravilhosas que pululam na Terra. Num cemitério, em noite de Lua cheia, sequer uma alminha penada me acudiu. Assombrações me deixaram a ver navios nos cafundós por onde andei.
     Dizem que o diabo sabe para quem aparece. Pois nunca apareceu para mim. Já pensou quanta crônica renderia essa figura anacrônica? Não é um azar dos diabos o meu? Na outra ponta do espectro, tampouco me adularam anjos, querubins, serafins e afins.
     A maior frustração, entretanto, foi nunca ter encontrado um ET, apesar de minhas dezenas de horas a olhar o céu. Não vi nem disquinho voador. Na noite escura, só me apareceram vaga-lumes, aviões, estrelas cadentes.
               Somos seres feitos de sonho. A falta de fantasia exterior talvez me obrigue a buscá-la dentro de mim. Donde o prazer de inventar histórias. A contínua procura, todavia, gera uma dúvida: existo ou me imagino? O espelho resolve a questão. Eu me vejo, logo existo. Reflito, logo existo. Meus quatro braços, três pernas, duas cabeças e estes nove olhos vermelhos comprovam. Sim, existo.