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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O PAI DO DOM QUIXOTE

     Existe unanimidade quanto ao maior romance da língua espanhola : é o Dom Quixote, de Cervantes. Muitos também o consideram o marco inaugural do romance moderno. Deliciosamente picaresco e grotesco, Dom Quixote de la Mancha parodiou e criticou as histórias de cavalaria. 
     Mas haveria, na literatura espanhola, um antecessor dele, um germe que viesse a brotar com maior viço na cabeça de Cervantes? A resposta é sim. Há alguns. 
     Um deles é “A vida de Lazarilho de Tormes”, publicado em 1554, quando Cervantes tinha apenas sete anos. Com espírito picaresco e grotesco, Lazarilho de Tormes é quixotesco meio século antes de Dom Quixote. Ninguém sabe quem o escreveu, mas, pelas críticas que o pequeno livro faz, era um erudito, bem informado sobre as mazelas da época, sobretudo as da Igreja católica, principal vítima do autor. 
     No entanto, é na sátira à cavalaria que os dois livros mais se aproximam. Lazarilho serve a um escudeiro que tem o perfil de Dom Quixote, inclusive em algumas imagens que lhe são agregadas, como a triste figura, a sorte adversa, a defesa da honra, a falsa nobreza. O próprio Lazarilho, com seu apego à realidade, é um rascunho de Sancho Pança. 
      Isso mostra que, por mais originais que julguemos os autores, nenhum escapa às influências de seus antecessores. No entanto, alguns, através de seus temperos exclusivos, linguagem elaborada, metáforas incomuns e genialidade própria, levam a fama. Shakespeare que o diga. Desculpe o lapso. Cervantes que o diga.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

A arte das artes

       Admiro a arte, todo tipo de arte, da escultura à pintura, da música à dança. Frequentei espetáculos, exposições e museus em muitos países. Escrevi dois romances que acompanham os movimentos de composições de Bach e Albinoni. Em outro, falei do prazer de comer um quadro de Pollock. No entanto, somos seres feitos de palavras. A palavra moldou nosso cérebro, ela lubrifica nossos neurônios, com ela nos comunicamos a maior parte do tempo, sobretudo através dela transmitimos nossa experiência, nossa história, nossos acertos e erros. A palavra criou-nos, e a literatura é a quintessência da palavra. Somos, em suma, fruto da literatura.
          Preocupa-me a importância cada vez menor que temos dado à literatura no Brasil. Ficamos cada vez mais pobres intelectualmente, mais tacanhos. Cada vez mais, cultuamos a mediocridade. A cultura da mediocridade leva à mediocridade da cultura. Sim, claro, existem investimentos do Estado em livros, há campanhas de leitura, porém são atividades pontuais, efêmeras. O Brasil hoje se guia pela mídia e pelos grandes mecenas, e a mídia e os grandes mecenas relegaram a literatura a plano secundário, como se pudéssemos prescindir das palavras, como se computadores e televisão vivessem sem palavras, como se ideias surgissem sem palavras, como se o futuro brotasse sem palavras, como se a reflexão sobre o ser humano acontecesse sem a literatura.
          Até os jornais e revistas atiram nos próprios pés quando diminuem o espaço dado aos livros, ajudando a cassar o gosto pela leitura. Diego Velázquez talvez tenha sido o mais genial pintor espanhol. Passo horas a admirar sua obra-prima, o quadro As Meninas, cuja beleza, humor e complexidade me encantam. No entanto, um contemporâneo dele, Miguel de Cervantes, escreveu Dom Quixote. Quem nos diz mais a respeito de seu tempo, de nós mesmos, de nossa dimensão, de nossa transitoriedade e permanência, de nossa fantasia, de nossa humanidade? Quem? Velázquez ou Cervantes?