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sexta-feira, 26 de junho de 2015

A arte das artes

       Admiro a arte, todo tipo de arte, da escultura à pintura, da música à dança. Frequentei espetáculos, exposições e museus em muitos países. Escrevi dois romances que acompanham os movimentos de composições de Bach e Albinoni. Em outro, falei do prazer de comer um quadro de Pollock. No entanto, somos seres feitos de palavras. A palavra moldou nosso cérebro, ela lubrifica nossos neurônios, com ela nos comunicamos a maior parte do tempo, sobretudo através dela transmitimos nossa experiência, nossa história, nossos acertos e erros. A palavra criou-nos, e a literatura é a quintessência da palavra. Somos, em suma, fruto da literatura.
          Preocupa-me a importância cada vez menor que temos dado à literatura no Brasil. Ficamos cada vez mais pobres intelectualmente, mais tacanhos. Cada vez mais, cultuamos a mediocridade. A cultura da mediocridade leva à mediocridade da cultura. Sim, claro, existem investimentos do Estado em livros, há campanhas de leitura, porém são atividades pontuais, efêmeras. O Brasil hoje se guia pela mídia e pelos grandes mecenas, e a mídia e os grandes mecenas relegaram a literatura a plano secundário, como se pudéssemos prescindir das palavras, como se computadores e televisão vivessem sem palavras, como se ideias surgissem sem palavras, como se o futuro brotasse sem palavras, como se a reflexão sobre o ser humano acontecesse sem a literatura.
          Até os jornais e revistas atiram nos próprios pés quando diminuem o espaço dado aos livros, ajudando a cassar o gosto pela leitura. Diego Velázquez talvez tenha sido o mais genial pintor espanhol. Passo horas a admirar sua obra-prima, o quadro As Meninas, cuja beleza, humor e complexidade me encantam. No entanto, um contemporâneo dele, Miguel de Cervantes, escreveu Dom Quixote. Quem nos diz mais a respeito de seu tempo, de nós mesmos, de nossa dimensão, de nossa transitoriedade e permanência, de nossa fantasia, de nossa humanidade? Quem? Velázquez ou Cervantes?


terça-feira, 23 de junho de 2015

Uma voz da África

      Você já ouvir falar no escritor Akinwande Oluwole Soyinka? Não? Pois não se envergonhe. Pouca gente, no Brasil, sabe quem ele é. Mais conhecido por Wole Soyinka, tem oitenta anos, aparência de setenta, e foi o primeiro africano a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, graças a uma obra que “numa perspectiva cultural bastante ampla, com toques de poesia, aborda o drama da existência”.
          Nigeriano, nascido numa família iorubá influente, Soyinka estudou na Inglaterra e, além de escrever romances, poemas e peças de teatro, tornou-se ativista político e lutou contra as ditaduras nigerianas e o apartheid sul-africano. Como escrever é perigoso, Soyinka foi preso. A prisão lhe deu munição para escrever mais ainda.
          Em suas obras, Soyinka contrasta a sensibilidade dos poemas com a complexidade dos romances, comparados aos de Faulkner e Joyce. Seu trabalho traduzido mais divulgado “É Melhor Partires de Madrugada”, coleção de memórias, só é encontrado em Portugal. Infelizmente as editoras brasileiras lançaram aqui apenas uma de suas obras: a peça teatral “O leão e a joia”, publicada pela Geração Editorial.
          Para lhe oferecer um gostinho da poesia de Soyinka, traduzi parte de seu poema “Dedicatória”. Aqui está:

          Umedece teus lábios com sal,
          que não seja o de tuas lágrimas.
          Esta chuva-água é presente dos deuses
          — bebe sua pureza, frutifica na hora certa.
          Leva, pois, os frutos à boca,
          corre para devolver o milagre de teu nascimento.
          Cria marés humanas como as ondas,
          imprime tua lembrança nas areias que ainda guardarão fósseis.

          Todo escritor gostaria que suas palavras virassem fósseis. Fósseis são pedras, resistem ao tempo, dialogam com a eternidade. É o caso de Wole Soyinka.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Literatura pra quê?

      Por que você lê? Lê porque quer se divertir, se entreter, passar o tempo? Talvez buscar a beleza do texto, fruir a criatividade, estimular seu senso estético? Você lê para adquirir informação, aumentar o conhecimento? Deseja, quem sabe, trocar umas horas de seu dia pela sabedoria que um escritor levou a vida inteira para adquirir? Ou é dos que gostam de viagens no tempo e no espaço, de grandes fantasias, de enredos que percorrem o mundo inteiro, epopeias que atravessam gerações, envolvendo a história de continentes e mares? Ou pertence à tribo dos fãs do horror, dos vampiros, dos magos, dos que mudam a realidade com o toque do poder sobrenatural? Talvez prefira contos, histórias curtas que nos pegam pelo pé e pela cabeça, com finais muitas vezes surpreendentes? Ou você adora poemas, esses voos da alma sintetizados, com frequência, num verso genial que a gente nunca esquece?
          Não importa a sua preferência, há sempre um livro que vai acertar em cheio no seu gosto, vai seduzi-lo, vai encantá-lo. Você pode comprar, pedir emprestado a um amigo, retirar na biblioteca, baixar no tablet ou no celular. O livro sempre está perto de você, para lhe acrescentar alguma coisa. Tudo que exige é um pouco de tempo e de atenção. Ele é o requinte maior que o ser humano desenvolveu, o fruto maior do cérebro. Abraça o universo, traz nossa alma, sentimento, desejo, sonho.
          O livro somos nós do jeito que viemos ao mundo, nus, deliciosamente humanos, fragilmente mortais em todos os séculos, mas capazes de saborearmos um pouquinho da eternidade. A eternidade fugaz de um livro diante dos olhos.  

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A literatura e a desonestidade como escada social

        O filme Meia Noite em Paris, de Woody Allen, e os escândalos de corrupção em Brasília me remeteram a um livro que fala dos excessos dos anos 1920, a ruidosa década de grande prosperidade que desembocou no caos de 1929. O livro se chama O Grande Gatsby. Foi escrito por Francis Scott Fitzgerald, um norte-americano pobre fascinado pelo mundo dos milionários. Fitzgerald e Zelda, sua mulher, aparecem no filme de Woody Allen em meio a festas extravagantes, esbanjando dinheiro, querendo ser ricos a qualquer custo. Os políticos de Brasília também aparecem em meio a festas extravagantes, esbanjando dinheiro público, querendo ser ricos a qualquer custo, sobretudo às nossas custas.
          O Grande Gatsby trata desses personagens do alpinismo social levado às últimas consequências. Jay Gatz, que se transformaria no grande Gatsby, é um rapaz pobre apaixonado por Daisy, moça rica. A fim de conquistar a amada, Gatsby trata de se enriquecer por meios ilícitos. Depois de ajuntar muito dinheiro, para ostentar posses e atrair Daisy, Gatsby promove festas extravagantes, nas quais esbanja fortunas. Quase conquista Daisy. Fitzgerald atrapalha o amor, provocando um morticínio digno dos grandes folhetins.
          O romance é considerado um dos melhores da literatura norte-americana do século 20, com o que não concordo, mas sem dúvida merece ser lido. Não apenas pelo mérito literário, também pelo retrato de uma época de prosperidade que parecia eterna e acabou em tragédia, tragédia que também atingiu a vida particular do escritor Scott Fitzgerald, morto prematuramente aos quarenta e quatro anos. Morreu pobre como nasceu.
          Grandes festas, grandes arroubos, grandes roubos, grandes Gatsby. A história se repete no Brasil de hoje. Dinheiro continua a mola do mundo. Há pouco, quase trouxe outra grande depressão, como a de 1929. Vamos pagar a conta do desmando alheio por um bom tempo. Lá fora e aqui dentro do país.