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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O PAI DO DOM QUIXOTE

     Existe unanimidade quanto ao maior romance da língua espanhola : é o Dom Quixote, de Cervantes. Muitos também o consideram o marco inaugural do romance moderno. Deliciosamente picaresco e grotesco, Dom Quixote de la Mancha parodiou e criticou as histórias de cavalaria. 
     Mas haveria, na literatura espanhola, um antecessor dele, um germe que viesse a brotar com maior viço na cabeça de Cervantes? A resposta é sim. Há alguns. 
     Um deles é “A vida de Lazarilho de Tormes”, publicado em 1554, quando Cervantes tinha apenas sete anos. Com espírito picaresco e grotesco, Lazarilho de Tormes é quixotesco meio século antes de Dom Quixote. Ninguém sabe quem o escreveu, mas, pelas críticas que o pequeno livro faz, era um erudito, bem informado sobre as mazelas da época, sobretudo as da Igreja católica, principal vítima do autor. 
     No entanto, é na sátira à cavalaria que os dois livros mais se aproximam. Lazarilho serve a um escudeiro que tem o perfil de Dom Quixote, inclusive em algumas imagens que lhe são agregadas, como a triste figura, a sorte adversa, a defesa da honra, a falsa nobreza. O próprio Lazarilho, com seu apego à realidade, é um rascunho de Sancho Pança. 
      Isso mostra que, por mais originais que julguemos os autores, nenhum escapa às influências de seus antecessores. No entanto, alguns, através de seus temperos exclusivos, linguagem elaborada, metáforas incomuns e genialidade própria, levam a fama. Shakespeare que o diga. Desculpe o lapso. Cervantes que o diga.

sábado, 4 de julho de 2015

O HUMOR E A SABEDORIA DE SHAKESPEARE PARA O FIM DE SEMANA

    Ele publicou várias obras-primas, faz sucesso há quatro séculos, provavelmente foi o maior escritor de todos os tempos. Se você pensou em William Shakespeare, acertou. O inglês de Stratford-upon-Avon escreveu Romeu e Julieta, Sonho de uma noite de verão, Hamlet, Rei Lear, Othelo, Macbeth, A Megera Domada e tantas outras peças consagradas por muitas gerações.
          Eis algumas das frases que o tornaram tão celebrado, a começar pela que é a mais famosa da literatura língua inglesa, talvez mundial, encontrada em Hamlet: To be or not to be: that’s the question – “Ser ou não ser, eis a questão”. Quem nunca a ouviu? Já disseram até que é “tupi or not tupi”.
          Também em Hamlet pincei estas duas frases:
          “A síntese é a alma da sabedoria”.
          “A loucura dos poderosos nunca passa despercebida” - esta frase é atualíssima.
          Na tragédia Macbeth, o Bardo fulmina:
          “Punhais escondem-se atrás do sorriso dos homens” - Maquiavel que o diga.
          Em O rapto de Lucrécia, ele escreveu :
          “O amor não sobrevive num coração tomado pelas sombras”.
          Em Romeu e Julieta, a constatação é mais suave:
          “Se o amor fosse cego, ele jamais conquistaria”.
          Na comédia Muito barulho por nada, ao contrário, o amor fere:
          “Alguns cupidos matam com flechas, outros com ciladas”.
          As citações a seguir vieram da comédia Como Gostais:
          “O mundo é um palco imenso, e todos os homens e mulheres, meros atores”.
          “A beleza atrai ladrões mais depressa que o ouro” - Brasília tem tanta beleza assim? 
          Em Medida por Medida se lê:
          “A esperança é o único remédio que sobra para os miseráveis” - por isso tantos vendem esperança em módicas prestações mensais.
          Para terminar, em caso de bebedeira, eis um conselho retirado de Macbeth:
          “A bebida provoca o desejo, mas acaba com o desempenho” - alguém duvida?
          Shakespeare legou-nos milhares de outras frases e versos preciosos. Há livros que os compilam, e a internet também os oferece. Descobri-los é garantia de sabedoria. Pena que haja mais coisa entre o céu e a terra do que possa imaginar nossa vã sabedoria, desculpa, nossa vã filosofia. Bom fim de semana.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Shakespeare era gay?

      Ser ou não ser, eis a questão: Shakespeare era gay? Esta pergunta frequenta as rodas acadêmicas e, de vez em quando, a mídia. Há quem o tire do armário em definitivo, quem diga que ele, casado e pai de três filhos, sequer passou perto de armários, há quem jure que o dramaturgo entrava e saía, com desenvoltura, de lá de dentro. Tem Shakespeare para todo o mundo. Do jeito que gostais, diria o Velho Bardo, com ironia. A suspeita tem várias origens. A maior aparece nos Sonetos. Dos cento e cinquenta e quatro que conhecemos, mais da metade fala de amores do poeta por um jovem. Amor tão profundo quanto o de Romeu e Julieta.
          O Soneto 75, por exemplo, abre com a declaração de que o tal jovem é, para o autor e seus pensamentos, como a comida para a vida. Nada mais explícito, certo? Não necessariamente. O fato de Chico Buarque ter feito músicas como se fosse mulher, declarando amor aos homens, não significa que tenha mudado sua opção sexual. Isso também vale para Shakespeare. Ele simplesmente se teria passado por um adulto envolvido com outro homem.
          No entanto, dizem os partidários de Shakespeare gay que o Soneto 20, no verso em que o tal jovem se torna senhor e senhora da paixão do poeta, o compromete sem volta.
          Muito ainda se escreverá sobre o assunto, porém jamais saberemos a verdade. Como também diria o dramaturgo, o que importa? A incerteza move o mundo. A ambiguidade move a literatura. Shakespeare, genial também como poeta e manipulador da ambiguidade, trouxe a dúvida para sua vida. É um motivo a mais para lermos seus belos sonetos.