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segunda-feira, 27 de julho de 2015

A VIAGEM DE GOETHE PELA ITÁLIA

            Sempre que um documentário ou telenovela focaliza a Itália e tanta gente sente vontade de viajar à terra de Dante, lembro-me de outro grande poeta, o alemão Goethe, que, logo após completar trinta e sete anos, percorreu o país, de Bolzano à Sicília. Goethe legou-nos um suculento relato do que viu, ouviu, refletiu e aprendeu. Mais que um ótimo livro de viagem, trata-se de um louvor à cultura e à inteligência. Muita cultura e muita inteligência.
            Enquanto atravessa a península, o futuro autor de Fausto fala da arte, das festas, dos costumes, da paisagem, da história, de muita coisa que já se perdeu, faz especulação científica, antecipa a evolução darwinista com ensaios sobre uma planta primordial, a Urpflanze, mãe de todas as outras, discute o trabalho de pintores, escultores, arquitetos, poetas e analisa a própria escrita feita ao longo do périplo até a ponta da bota.
            O livro Viagem à Itália 1786 a 1788 resume a Itália e a cabeça de Goethe, gênio que por tudo se interessava. Com mente aberta, ele confessa que perdia a fala ou chorava quando se emocionava, como ocorreu em Nápoles. Ali, depois de repreender um rapaz que cantava muito desafinado, levou um puxão de orelha do jovem, que, com o polegar em riste, lhe disse: “Perdão, senhor, mas esta é a minha pátria”. Em outra ocasião, diante do viço de plantações bem adubadas, comentou com ironia: “Esterco faz mais milagre que santo”.
Não suspendeu o roteiro nem depois de quase ser preso, no lago de Garda, acusado de espionagem para a Alemanha. Hoje em dia, as cidades à beira do lago mostram com orgulho os locais onde comeu, dormiu, pintou, além de inventar histórias sobre sua breve passagem. Construíram até museus.
            Talvez a viagem tenha inspirado sua obra maior, Fausto, pois ele admite que, em Nápoles, o terrível e o belo se anulam para produzir indiferença, e o napolitano seria outro homem, caso não se sentisse encurralado entre deus e satanás.
            O país que Goethe viu há mais de duzentos e vinte anos ficará, graças ao relato Viagem à Itália. No futuro, o livro continuará servindo de guia e introdução a quem deseje conhecer a terra de Dante, aliás, uma ótima pedida. Duplamente. Goethe também é sempre uma ótima pedida. Nunca envelhece.     


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Dilema do Brasil: inventar ou imitar?

Ao final da tarde de vinte e dois de setembro de 1786, na cidade italiana de Vicenza, reuniram-se cerca de quinhentas pessoas para discutir o que havia trazido maior proveito às belas artes, a invenção ou a imitação. Os defensores da imitação venceram, pois, segundo uma testemunha ocular dos debates, “não afirmaram senão o que a malta pensa, ou é capaz de pensar”. 
De repente, flagrei-me a pensar: o que é melhor para o Brasil, inventar ou imitar? Na cultura, submetemo-nos com frequência ao que vem de fora, copiando muita coisa supérflua e de mau gosto. Quem quiser exemplos folheie as revistas e os jornais, ou veja a televisão. Até parece que a inauguração de uma pracinha em Nova York e o aniversário de um ator em Hollywood são efemérides brasileiras, tamanho o espaço que ocupam. Isso é indigência cultural. Nessa toada, no dia em que a cadelinha da Casa Branca ficar doente, teremos vigília, velas, promessas e milhares de brasileiros cantando música cáuntri  em prol da saúde canina. 
          O antigo dilema, entra governo, sai governo, toma conta de Brasília: devemos importar ou desenvolver tecnologia própria? Repisam-se os argumentos costumeiros: não se deve reinventar a pólvora; é mais barato comprar know-how lá fora; nascemos, pela extensão climática e territorial, com vocação para a agricultura; devemos deixar esse negócio de tecnologia para os norte-americanos, chineses e japoneses, anos-luz à nossa frente. Existem, é claro, os paladinos da autonomia, defenestrados pela eterna alegação: não temos dinheiro – e tecnologia. E as decisões ficam para depois.
Em conseqüência, o fosso se alarga, e sucumbimos ao subdesenvolvimento. Quando nada, possuímos setores de ponta que pouco devem aos estrangeiros. Uma maneira de incentivá-los seria consumar o casamento entre a universidade e a indústria. Em outras palavras, transformar a pesquisa em patentes. Os chineses oferecem um caminho adicional. Copiam para exportar, de olho no exemplo anterior dos japoneses. Com o dinheiro arrecadado, desenvolvem as próprias novidades. Com tanta cara de pau, acertaram na escolha.
Inventar ou imitar? A questão continua aberta, porém Vicenza ainda pode lançar mais luz sobre ela. Em 1786, a cidade estava decadente após o auge no século 16, quando a ousadia de criadores como Palladio revolucionou sua arquitetura e a transformou em referência na Europa. Teria a ausência de ímpeto e força motivado o resultado do debate?
Por falar em ímpeto e força, a testemunha ocular citada foi Goethe. Em viagem pela Itália, ficou seduzido pela cultura peninsular, a ponto de escrever duas obras ditas italianas, Ifigênia e Torquato Tasso, sem contudo perder a identidade de autor. A história de Fausto tampouco é original. Alguém entretanto a separa de Goethe? Seu gênio fez da imitação uma invenção, criando uma obra-prima.
          A moeda, quando lançada, pode dar cara ou coroa. É preciso fazer a escolha, com toda a informação disponível. Se inventarmos apostar na parada da moeda em pé, aí sim teremos um problema. O Brasil ainda não sabe disso.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Sou mentiroso profissional


         Como todo escritor, sou mentiroso. Dever de ofício. Quanto maior nossa competência para mentir, maior sucesso gozamos entre os leitores. A mentira bem engendrada faz nossos personagens mais reais, mais palpáveis, mais críveis, mais humanos. 
      Romancistas e contistas são mais que fingidores, vamos além, inventamos vidas e mundos, trazemos alegrias e tristezas, juntamos e separamos pessoas, matamos a rodo, criamos e resolvemos problemas no papel. No papel, nada mais. Daí nossa alcunha: ficcionistas. Não podemos acreditar em nossas fantasias. Muitos autores incorreram nesse erro e se deram mal. Hemingway, por exemplo, achava que tudo se resumia à escrita e, sem escrever, a vida não valia a pena. Deu no que deu. Tiro de espingarda na cabeça. Cano duplo.
          Leitores também confundem ficção com realidade, o que é, aliás, muito comum. Já me abordaram na rua para perguntar se sou realmente como alguns personagens que criei, justamente os mais polêmicos. Fizeram coisas mais terríveis com outros autores. Por exemplo, influenciados por um livro chamado Os Sofrimentos do Jovem Werther, do alemão Goethe, muitos jovens cometeram suicídio no século 18. Goethe mentiu com tanta competência que transmitiu para muita gente o desespero do amor não correspondido, provocando mortes em série.
          O costume dos autores afirmarem que são mentirosos é antigo. Fernando Sabino escreveu uma bela crônica sobre isso, na qual se confessou mentiroso compulsivo desde pequeno, daí a decisão de derramar nas palavras sua obsessão e ainda ganhar um dinheirinho.

          Agora, cá entre nós, quem não mente de vez em quando? De escritor, de mentiroso e de louco todo mundo tem um pouco. Ou você é a exceção que faz a regra? Pense nisso e tenha um bom dia. Com toda sinceridade.