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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Sou mentiroso profissional


         Como todo escritor, sou mentiroso. Dever de ofício. Quanto maior nossa competência para mentir, maior sucesso gozamos entre os leitores. A mentira bem engendrada faz nossos personagens mais reais, mais palpáveis, mais críveis, mais humanos. 
      Romancistas e contistas são mais que fingidores, vamos além, inventamos vidas e mundos, trazemos alegrias e tristezas, juntamos e separamos pessoas, matamos a rodo, criamos e resolvemos problemas no papel. No papel, nada mais. Daí nossa alcunha: ficcionistas. Não podemos acreditar em nossas fantasias. Muitos autores incorreram nesse erro e se deram mal. Hemingway, por exemplo, achava que tudo se resumia à escrita e, sem escrever, a vida não valia a pena. Deu no que deu. Tiro de espingarda na cabeça. Cano duplo.
          Leitores também confundem ficção com realidade, o que é, aliás, muito comum. Já me abordaram na rua para perguntar se sou realmente como alguns personagens que criei, justamente os mais polêmicos. Fizeram coisas mais terríveis com outros autores. Por exemplo, influenciados por um livro chamado Os Sofrimentos do Jovem Werther, do alemão Goethe, muitos jovens cometeram suicídio no século 18. Goethe mentiu com tanta competência que transmitiu para muita gente o desespero do amor não correspondido, provocando mortes em série.
          O costume dos autores afirmarem que são mentirosos é antigo. Fernando Sabino escreveu uma bela crônica sobre isso, na qual se confessou mentiroso compulsivo desde pequeno, daí a decisão de derramar nas palavras sua obsessão e ainda ganhar um dinheirinho.

          Agora, cá entre nós, quem não mente de vez em quando? De escritor, de mentiroso e de louco todo mundo tem um pouco. Ou você é a exceção que faz a regra? Pense nisso e tenha um bom dia. Com toda sinceridade.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O assassinato de uma casa e de seus habitantes

       Pode uma casa ter vida, crescer e morrer como uma pessoa? Se você ler o romance Crônica da Casa Assassinada, do escritor mineiro Lúcio Cardoso, a resposta é sim. Sim, pode. E com que maestria a casa morre, acompanhando a decadência de seus moradores, uma família do interior mineiro, os Meneses. Numa mistura de surrealismo, densidade de texto e introspecção psicológica, trabalhadas em linguagem que muitas vezes beira a poesia, Lúcio Cardoso joga-nos dentro de uma fazenda que guarda segredos terríveis entre os parentes e os agregados que a habitam, lado a lado, nos quartos ao longo de um corredor espremido entre a sala e a cozinha.
          Incesto, morbidez, adultério, pesadelo e violência entrecruzam-se de maneira velada, sutil, expressos em diários, cartas e confissões, a partir da chegada da desconhecida Nina, mulher bonita, manipuladora e extravagante que deixa o Rio de Janeiro para casar-se com um dos Meneses, atraída e traída pela aparente riqueza da família. Nina desperta paixão e inveja nos outros moradores. A tensão aumenta. Um aparente incesto acontece. Relatos de testemunhas adicionam lenha à fogueira. O embate entre os personagens gera reações que vão da febre amorosa ao ódio, da indiferença à mentira.
      Haja criatividade para manter o texto num nível tão elevado, belo e angustiante. A casa é um complexo caso psicanalítico, sem saída, cujo destino se superpõe ao de Nina, carcomida pelo câncer e suas metástases.

          O romance foi publicado em 1959. Faz, portanto, cinquenta e seis anos que a obra encanta. Continua magnífica a Crônica da Casa Assassinada. Um assassinato que nem Freud junto com Sherlock Holmes desvendariam.