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sábado, 6 de junho de 2015

Viagens - modo de usar

Viagens nos ensinam a humildade. Com sutileza, despertam o tempo, o outro, o próprio viajante. Quanto mais longe vamos, mais nos desapegamos de orgulhos, pompas e idiossincrasias. Quanto mais pessoas conhecemos, mais nos conhecemos. Quanto mais lugares visitamos, mais admiramos o planeta, sua força, sua fragilidade, seu equilíbrio, seu tamanho. Aqui surge um paradoxo: crescemos quando nos apequenamos ante os continentes, ante a multiplicidade de costumes, riquezas, mitos e realidades, ante a vastidão das montanhas, planícies e mares, ante a pluralidade de raças e credos, ante a relatividade dos juízos. Viagens contrapõem a dimensão da Terra e a do ser humano. Provam que somos meras frações de um universo infinito. Ora, frações do infinito são o próprio infinito. Daí, talvez, nosso crescimento.

O mundo é maior que nossa aldeia, obviedade de que com frequência não nos damos conta. No entanto, o vilarejo mais distante tem segredos para revelar. Por outro lado, também portamos sabedorias. Resultado: ao encarar a diversidade, nossos preconceitos, sobretudo os que não admitimos possuir, afloram e provam-se ridículos. Aqueles arroubos tão arraigados pelos êxitos, origens, posses e realizações tornam-se patéticos diante do legado alheio, muitas vezes anônimo, no entanto arrebatador. Nos encontros da diferença, apagamos a tola impressão de que nosso tempo é o único, o mais brilhante, herdeiro de nenhum outro, erguido a partir de nossas conquistas. A boa viagem confunde, questiona, excita, acerta, faz pensar. É a maneira mais eficaz para descobrir nossa espécie e a nós mesmos em nossa total nudez.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Autoajuda para quem quer viver muito

      De vez em quando eu me flagro com preconceito literário. Por exemplo, rejeito escritores que nunca li. Típico “não li e não gostei”. Descubro que alguém fez minha cabeça, portanto fui induzido, manipulado. Para tirar a teima, saio em busca do autor preterido, vasculho seus livros, chego à minha própria conclusão.
          A iniciativa me rendeu gratas surpresas. Quanta gente boa eu renegava por cisma, por ignorância, por ouvir dizer. Um desses autores era Marco Túlio Cícero, escritor, advogado, orador, político e filósofo da Roma antiga, que nasceu mais de cem anos antes de Cristo. Pois eu achava que Cícero fosse apenas uma aula de latinório descartável, paixão de beletrista, expoente de conhecimento ultrapassado. Pois me enganei. O homem é bom, bom mesmo. Continua atual. Escreve com clareza, concisão e verve, reflete sobre questões relevantes como a amizade e a velhice, domina a sabedoria de seu tempo (até do nosso), tem uma língua ferina, catilinária, quando decide criticar.
       Tomemos, por exemplo, seu livro Saber Envelhecer. Quem nunca ficará velho? Quem nunca se indagará a respeito da morte? Quem abraçou os prazeres da vida nunca se verá obrigado a renunciar a vários deles? A outra opção para quem não deseja envelhecer não é muito prazenteira.
          Cícero, sozinho, vale por uma centena de livros de autoajuda. Aliás, muitos autores de autoajuda bebem em Cícero e não lhe dão o devido crédito. Reciclam, com grande perda de conteúdo, o que o mestre romano escreveu há tantos séculos. Aproveitam-se da desinformação e do preconceito contra o antigo. Miram pessoas que acham que o mundo nasceu ontem. Contra o preconceito, nada como o contato direto. Beba direto na fonte, tire suas próprias conclusões. Como fez Cícero, seja seu próprio juiz. E colha bem o seu dia.