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terça-feira, 16 de junho de 2015

O leitor também é autor

        Dizem que todo escritor tem suas manias. É verdade, temos sim. Falo por mim e pelos colegas. Uns gostam de determinados temas, outros detestam certas palavras e expressões, uns têm ojeriza a adjetivos, outros abominam somente os advérbios terminados em mente, há os que fogem dos ditados populares, a maioria odeia crítica.
          O leitor também é escritor, pois recria cada obra que lê. Posto de outra forma, aquilo que um autor escreve não é necessariamente o que o leitor capta. Dez leitores terão dez diferentes interpretações do texto. Assim, em cada romance, conto ou poema, coexistem muitos autores. Talvez por isso o leitor também tenha suas manias. Conheço gente que escolhe livro pela grossura, tanto pela falta quanto pelo excesso. Uma amiga só adquire romances com mais de quinhentas páginas, um parente meu se amarra apenas em volumes com menos de cem páginas. Há quem, por princípio, ame a autoajuda, quem rejeite ensaios ou sonetos, quem prefira histórias com muito diálogo, quem leia o livro de trás para a frente, quem somente o folheie, quem nunca passe da orelha, quem adore diários. Nos Estados Unidos, onde há estatística para tudo, descobriu-se que um terço das obras compradas nunca foi ou será aberta, pois servem apenas de enfeite, para mostrar. Quem diria.
          Um amigo meu considera cada livro um ser vivo, com personalidade própria, até voz. Imagino sua casa à noite. De repente, escapam gritos pavorosos da estante, mas ele nem liga, pois sabe que vêm da Divina Comédia, provavelmente do círculo infernal. Imagine, se a moda pega, a bagunça que as bibliotecas vão virar. Imagine um livro sobre a Segunda Guerra Mundial tomando vida. Tiroteio e bombardeio dia e noite. O que seria de nossa sanidade? Nunca mais dormiríamos.

          Pois é, leitor também tem suas manias, tão variadas quanto as dos escritores. A ficção permite que a gente se aproprie da obra alheia e a transforme em coisa nossa, com nosso tempero. Isso é ótimo. Com nossa marca, nossa idiossincrasia, a leitura fica ainda mais prazerosa. De preferência, sem tiroteio.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Autoajuda para quem quer viver muito

      De vez em quando eu me flagro com preconceito literário. Por exemplo, rejeito escritores que nunca li. Típico “não li e não gostei”. Descubro que alguém fez minha cabeça, portanto fui induzido, manipulado. Para tirar a teima, saio em busca do autor preterido, vasculho seus livros, chego à minha própria conclusão.
          A iniciativa me rendeu gratas surpresas. Quanta gente boa eu renegava por cisma, por ignorância, por ouvir dizer. Um desses autores era Marco Túlio Cícero, escritor, advogado, orador, político e filósofo da Roma antiga, que nasceu mais de cem anos antes de Cristo. Pois eu achava que Cícero fosse apenas uma aula de latinório descartável, paixão de beletrista, expoente de conhecimento ultrapassado. Pois me enganei. O homem é bom, bom mesmo. Continua atual. Escreve com clareza, concisão e verve, reflete sobre questões relevantes como a amizade e a velhice, domina a sabedoria de seu tempo (até do nosso), tem uma língua ferina, catilinária, quando decide criticar.
       Tomemos, por exemplo, seu livro Saber Envelhecer. Quem nunca ficará velho? Quem nunca se indagará a respeito da morte? Quem abraçou os prazeres da vida nunca se verá obrigado a renunciar a vários deles? A outra opção para quem não deseja envelhecer não é muito prazenteira.
          Cícero, sozinho, vale por uma centena de livros de autoajuda. Aliás, muitos autores de autoajuda bebem em Cícero e não lhe dão o devido crédito. Reciclam, com grande perda de conteúdo, o que o mestre romano escreveu há tantos séculos. Aproveitam-se da desinformação e do preconceito contra o antigo. Miram pessoas que acham que o mundo nasceu ontem. Contra o preconceito, nada como o contato direto. Beba direto na fonte, tire suas próprias conclusões. Como fez Cícero, seja seu próprio juiz. E colha bem o seu dia.