Mostrando postagens com marcador viagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador viagem. Mostrar todas as postagens

sábado, 6 de junho de 2015

Viagens - modo de usar

Viagens nos ensinam a humildade. Com sutileza, despertam o tempo, o outro, o próprio viajante. Quanto mais longe vamos, mais nos desapegamos de orgulhos, pompas e idiossincrasias. Quanto mais pessoas conhecemos, mais nos conhecemos. Quanto mais lugares visitamos, mais admiramos o planeta, sua força, sua fragilidade, seu equilíbrio, seu tamanho. Aqui surge um paradoxo: crescemos quando nos apequenamos ante os continentes, ante a multiplicidade de costumes, riquezas, mitos e realidades, ante a vastidão das montanhas, planícies e mares, ante a pluralidade de raças e credos, ante a relatividade dos juízos. Viagens contrapõem a dimensão da Terra e a do ser humano. Provam que somos meras frações de um universo infinito. Ora, frações do infinito são o próprio infinito. Daí, talvez, nosso crescimento.

O mundo é maior que nossa aldeia, obviedade de que com frequência não nos damos conta. No entanto, o vilarejo mais distante tem segredos para revelar. Por outro lado, também portamos sabedorias. Resultado: ao encarar a diversidade, nossos preconceitos, sobretudo os que não admitimos possuir, afloram e provam-se ridículos. Aqueles arroubos tão arraigados pelos êxitos, origens, posses e realizações tornam-se patéticos diante do legado alheio, muitas vezes anônimo, no entanto arrebatador. Nos encontros da diferença, apagamos a tola impressão de que nosso tempo é o único, o mais brilhante, herdeiro de nenhum outro, erguido a partir de nossas conquistas. A boa viagem confunde, questiona, excita, acerta, faz pensar. É a maneira mais eficaz para descobrir nossa espécie e a nós mesmos em nossa total nudez.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Boeing em queda livre

O avião canadense decolou de Seoul, na Coreia do Sul, para Vancouver, no Canadá, às cinco da tarde. Quase trezentas pessoas a bordo. Minha mulher e eu ocupávamos a penúltima fileira, à frente de um simpático casal de portugueses. Quando íamos jantar, o piloto ordenou que aeromoças e passageiros se assentassem e afivelassem os cintos. Havia forte turbulência pela frente.
          O que se seguiu não foi turbulência, mas um rodeio de peão em cima de touro bravo. O Boeing 777 despencou sobre um colchão de ar duro, sofreu um baque, subiu, caiu, adernou à direita, estremeceu, subiu de novo. Então veio a queda livre. Sem fim. Depois de bater no fundo, pela janela vi o avião literalmente bater as asas para voar. Elas quase se dobravam e tocavam uma na outra. Moviam-se quais as de um pássaro ferido, prestes a entregar os pontos. Maleiros se abriram, objetos tombaram, garrafas caíram, vidros se espatifaram. Nesse momento, aconteceu o primeiro grito de pavor.
          Dizem que o pânico contagia. Sim, é verdade. Em questão de segundos, o avião inteiro berrava, uivava, gania, clamava aos céus. Parecíamos viver os últimos momentos. Olhei para minha mulher. Ela cruzara as mãos e, cabisbaixa, as apoiara entre as pernas. Brinquei, para espantar o medo:
          – Puxa, meu bem, nunca imaginei que iríamos morrer no meio do Pacífico...
          Seu olhar me queimou mais que fogueira da Inquisição.
          Durante outro mergulho sem fim, o português no banco de trás se rendeu ao terror:
          – Mariiiia, desta vez fomos!
          Não, não fomos. Novo baque, nova sobrevida, nova queda:
          – Mariiiiiiiiaaa, desta vez vaaaamos! Adeus, Mariiia!
          – Adeus, Manoel, amor meu!
          Olhei para o lado. Um garoto coreano rolava seu carrinho Matchbox sobre os assentos, alheio à balbúrdia, alheio ao medo, alheio até à mãe, que se descabelava.
          De repente, tudo acabou. Melhor dizendo, acabou a turbulência. Sobrevivemos. Vi o céu – o belo céu deste mundo em fim de tarde.

          Não consegui jantar. Meu assento ficava junto aos banheiros, a fila era enorme, e várias pessoas exalavam o mau cheiro de quem não se segurara. Havia manchas nos traseiros. Ninguém se sentiu constrangido. O preço era baixo para tanto alívio.