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sábado, 20 de junho de 2015

Poesia morde?

       Você não gosta de poesia, acha a poesia de hoje difícil de entender, tem preguiça de percorrer os labirintos de um poema atual? Uai, sabe que eu também fico às vezes nessa sinuca de bico? A culpa não é da poesia, sempre necessária e reveladora, mas dos modismos adotados por alguns poetas. O resultado costuma ser, de fato, uma confusão, um desencontro de palavras, uma verborragia desprovida de sentido.
          Desconfio de que, com frequência, nem o próprio poeta saiba o que tenha dito, se é que tivesse algo a dizer. Um deles me confessou que desejava apenas fazer ruído. Sim, ruído. Se esse era o objetivo, por que não gravou a barulheira no centro da cidade às seis da tarde? O interessante é que alguns desses gajos recebem louvações da mídia, que tenta nos forçar a concluir que são o ideal da arte, o suprassumo das musas, o modelo do futuro. Somos enganados e ficamos com a tristeza de desgostar de poesia, não é mesmo?
          Vamos separar as coisas. Quem faz poesia assim é uma minoria. Existem grandes poetas, novos e antigos, para todos os gostos, desde os que fazem grandes voos verbais aos gênios que sintetizam enciclopédias em meia dúzia de palavras. Esses não passarão feito passarinho.
          Enquanto romancista, invejo a capacidade de dizer tanto em tão pouco. Os poetas me tocam bem fundo, revelam passagens escondidas entre nossos abismos interiores, tiram o peso do corpo e da alma, abrem avenidas para o pensamento, questionam ideias, expõem conflitos, revolvem nossas entranhas, oferecem momentos de graça e vislumbram o paraíso. O mundo é feito de poesia. O bom poeta sabe disso e a garimpa onde menos esperamos. Arranca-a da pedra, do caminho, do asfalto. O resultado é puro deleite, puro encantamento, pura poesia. Poesia não morde. Afaga.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Dois paraísos no Canadá

Ponha num só lugar os seguintes ingredientes: rios cristalinos, lagos cor turquesa ou brancos de gelo, céu azul, montanhas nevadas, florestas bem preservadas, dezenas de cachoeiras, algumas azuis, geleiras quilométricas, canyons escavados pelas eras glaciais e pelas chuvas, bandos de pássaros e bichos, alguns dos mais antigos e estranhos fósseis do planeta, ar sempre fresco com odor de pinheiro, paisagens deslumbrantes.
Misture bem esses ingredientes, descubra todas as formas para combinar e recombinar tanta variedade e formosura. Pronto. Você chegou ao Oeste do Canadá, aos Parques Nacionais de Banff e de Jasper, isto é, você está num dos mais deslumbrantes cenários da Terra. Aproveite. Aqui se respira a natureza em estado puro, sem aditivos. Caminhar pela região revigora a mente e o corpo. Pode ser por um dia, três, uma semana, duas. Há trekkings para todos os gostos.
          Se você for do tipo que gosta de estrada e conforto, Banff e Jasper também o encantarão, pois podem ser vistos em todo o seu esplendor da janela do carro ou do hotel. Estão ligados por duas bonitas rodovias, a Canadá 1 A e a 93, que passam por Lake Louise (famoso pela cor turquesa), enquanto margeiam as águas límpidas dos rios Bow e Athabasca. Duzentos e sessenta quilômetros boquiabertos separam os dois parques que, pela paisagem deslumbrante e pela riqueza da flora e fauna, se tornaram Patrimônios Naturais da Humanidade pela UNESCO. Título merecido.
          Banff, criado em 1885, é o terceiro mais antigo parque nacional do mundo, tem mais de 1.600 quilômetros de trilhas, quase 3.000 locais para acampar e mais de quatro milhões de pessoas o visitam a cada ano. Gente do mundo inteiro o procura, sobretudo para longas caminhadas. Aliás, estas tiram o fôlego. Não só nas trilhas, às vezes difíceis, como na deslumbrante paisagem. A mente vive epifanias.
          Jasper, maior parque das Montanhas Rochosas, data de 1907, possui grande variedade de animais silvestres e recebe mais de dois milhões de turistas por ano.  
          Bons hotéis, bed&breakfasts, restaurantes e serviços, a preços razoáveis, atendem aos visitantes de ambos os parques. Se preferir, acampe. A baixíssimo custo, com conforto e segurança.
          Há lugares onde a natureza caprichou mais ao fazer o mundo. Banff e Jasper estão entre eles. São dois pedaços do paraíso transferidos para a Terra. Dão saudade pelo resto da vida.

                                                                                                   Para Gabi.