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quarta-feira, 8 de julho de 2015

A INCOMPATIBILIDADE ENTRE A ARTE E A CIÊNCIA

          Não vejo qualquer conflito entre a arte e a ciência, duas ferramentas para interpretar o mundo. Ambas se originam em nosso cérebro, sempre ocupado a construir modelos para tudo, das galáxias a complôs para depor presidentes. O artista enxerga o mundo de maneira diferente do cientista, porém um e outro avançam nossa compreensão da realidade, realidade que foge entre nossos dedos e logo será reinterpretada ou reinventada. Equações da física saem de moda com a mesma frequência que estilos literários. Somos volúveis como nuvens.
          Trafegar com desenvoltura entre a arte e a ciência é, para mim, um modo de aumentar a curtição da vida. Dobra-se a curtição, no mínimo. Às vezes, o resultado é maior que a soma das partes. Por isso, prezo muito os autores com sensibilidade e, ao mesmo tempo, curiosidade científica. Por exemplo, Italo Calvino. Ele se empolga tanto com o espaço cósmico quanto com a neve que cai com suavidade nos Alpes. Uma prova é seu livro de ensaios Seis Propostas para o Próximo Milênio, escrito pouco antes de sua morte, em 1985.
          Seis Propostas para o Próximo Milênio talvez seja a obra mais criativa que deixou. Um legado da alma. Uma herança da razão. Uma obra do cérebro. Um parto das mesmas células que nos fazem astrofísico ou escritor. Nele Calvino mostra como a leveza, a rapidez, a exatidão, a visibilidade e a multiplicidade podem aumentar nossa percepção. Graças a essas cinco qualidades, seu texto se aproxima da precisão científica, sem perder a sensibilidade artística. 
         Calvino funde no livro os dois hemisférios do cérebro, cada qual a interpretar a realidade sob uma ótica diferente, jamais incompatível. Ambos, no entanto, dispostos a nos proporcionar uma ideia mais abrangente da vida. Sobretudo de sua graça e de sua beleza. A graça e a beleza que, hoje em dia, tentamos encobrir.   

sábado, 20 de junho de 2015

Poesia morde?

       Você não gosta de poesia, acha a poesia de hoje difícil de entender, tem preguiça de percorrer os labirintos de um poema atual? Uai, sabe que eu também fico às vezes nessa sinuca de bico? A culpa não é da poesia, sempre necessária e reveladora, mas dos modismos adotados por alguns poetas. O resultado costuma ser, de fato, uma confusão, um desencontro de palavras, uma verborragia desprovida de sentido.
          Desconfio de que, com frequência, nem o próprio poeta saiba o que tenha dito, se é que tivesse algo a dizer. Um deles me confessou que desejava apenas fazer ruído. Sim, ruído. Se esse era o objetivo, por que não gravou a barulheira no centro da cidade às seis da tarde? O interessante é que alguns desses gajos recebem louvações da mídia, que tenta nos forçar a concluir que são o ideal da arte, o suprassumo das musas, o modelo do futuro. Somos enganados e ficamos com a tristeza de desgostar de poesia, não é mesmo?
          Vamos separar as coisas. Quem faz poesia assim é uma minoria. Existem grandes poetas, novos e antigos, para todos os gostos, desde os que fazem grandes voos verbais aos gênios que sintetizam enciclopédias em meia dúzia de palavras. Esses não passarão feito passarinho.
          Enquanto romancista, invejo a capacidade de dizer tanto em tão pouco. Os poetas me tocam bem fundo, revelam passagens escondidas entre nossos abismos interiores, tiram o peso do corpo e da alma, abrem avenidas para o pensamento, questionam ideias, expõem conflitos, revolvem nossas entranhas, oferecem momentos de graça e vislumbram o paraíso. O mundo é feito de poesia. O bom poeta sabe disso e a garimpa onde menos esperamos. Arranca-a da pedra, do caminho, do asfalto. O resultado é puro deleite, puro encantamento, pura poesia. Poesia não morde. Afaga.

sábado, 13 de junho de 2015

Sexo é poder

       Existe muito modismo no campo material, mas no das ideias a tolice campeia. Entre a divagação e a práxis, entre a tevê e o blog, entre o aqui e o além, entre o céu e o inferno, entre o hedonismo e o estoicismo, há lugar para todo tipo de asneira e quimera, defendidas por argumentos à primeira vista racionais. Por mais estapafúrdia que seja a pregação, ela sempre consegue seguidores, da limpeza étnica ao suicídio coletivo de uma seita em nome de uma nave espacial escondida atrás do rabo de um cometa. O suicídio coletivo aconteceu há alguns anos, a limpeza étnica ocorre ainda hoje.
       Sandice, que não é privilégio de nosso tempo, quando investe contra a natureza humana, costuma buscar o respaldo divino para consolidar-se. Por exemplo, nos primeiros séculos da era cristã, o ascetismo era modismo, incensado como o melhor caminho para chegar a Deus. A carne significava a perdição: a mulher como um todo e o homem, da cintura para baixo, eram criações demoníacas. São Paulo julgou o celibato superior ao casamento. Dois influentes pensadores da época, Agostinho e Jerônimo, pregaram contra o ato sexual, tachando-o de repugnante e sujo. Na mesma linha de repúdio, Tertuliano considerou-o vergonhoso; Arnóbio, nojento e degradante; Ambrósio, podre. A condenação sobreviveu através dos séculos, provocando desde a autocastração de Orígenes até, durante a Era Vitoriana, o conselho de alguns médicos aos maridos ingleses para procurarem prostitutas, porque o orgasmo pago seria menos envolvente – menos pecaminoso, portanto – do que com as próprias esposas. Aliás, Freud, vitoriano de formação, debruçou-se com exagero sobre o sexo varrido para debaixo do tapete, reflexo de seu tempo. Libertou-se de totens e tabus, mas criou outros.
       Resultado do modismo da abstinência sexual: culpa para milhões de pessoas. Todo psicanalista deveria acender, a cada dia, uma vela para santo Agostinho e outra para são Jerônimo, agradecendo-lhes os clientes dilacerados pelo confronto entre um instinto desenvolvido pela natureza durante milhões de anos e uma filosofia incensada por meia dúzia de homens há meros vinte séculos. O celibato, abstinência levada ao paroxismo, é contra a vida. Se generalizado, mais louco que o suicídio de uma seita inteira em nome de um cometa, mataria toda a espécie. Outro paradoxo: ainda o defendem no século 21. Da boca para fora e da porta das igrejas para dentro. Controlar o ato sexual alheio dá poder. Muito poder.

       Ideias são produto de nossa mente, sujeitas, portanto, a modismos, do esbanjamento à virgindade – há quem, no outro extremo, julgue a pobreza e o tantrismo os grandes caminhos para a realização terrena. O ser humano, apesar das cambiantes concepções de mundo que adota, tem sido o mesmo em qualquer época. Basicamente, sobrevive e procria – em resumo, sobrevive para procriar. Para facilitar a tarefa, criou as civilizações e as culturas. Ao observá-las à distância, constatam-se as investidas contra as pessoas, as crendices apregoadas, as milenares superstições que perduram, as hipóteses de trabalho tornadas verdades, os delírios entronizados nas mídias, a falta de senso crítico. Por mais cruéis e insustentáveis que sejam alguns pontos de vista, jamais nos livraremos deles. Ainda bem. Isso se chama convívio, tolerância. A diversidade faz a beleza do mundo – um mundo cheio de graça, por sinal. Oxalá a graça do mundo não seja modismo.