Mostrando postagens com marcador adrenalina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador adrenalina. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 13 de julho de 2015

O ASSALTANTE DE QUASE 15 ANOS

     Meu nome é Washington. Vou fazer quinze anos. Vivo de arrombar carro pra levar o som. Ataco sempre com um amigo. A gente põe o joelho no vidro do passageiro, perto da maçaneta, puxa pra fora a parte de cima da porta com as mãos ou um pé de cabra. É moleza. Porta de carro parece angu, dobra na hora. Quando surge a fresta, enfio o braço lá dentro, destravo, abro, e aí começa a correria. Tenho de tirar o som o mais rápido possível. Então arrebento o console sem dó. Não posso demorar mais de um minuto e meio, senão me ferro. O dono fica bravo duas vezes: tem de comprar porta nova e som novo.
     Acho o serviço legal. Adrenalina pura. Cada carro é um desafio diferente, a gente fica viciado, quer aumentar o risco, começa a acreditar que é o melhor da praça, aí se estrepa. Então bom mesmo é pegar a mercadoria bem depressa, arrebentando tudo, e sumir. A parte ruim é o preço que eles pagam. Na loja, um som chique vale oitocentos, até mil. O receptador não dá mais que cinquenta. É sacanagem, mas tenho de aceitar, senão vou vender pra quem? De vez em quando, aparece um rico que foi roubado e quer repor. Aí eu faturo até cem pratas.
      No sábado, me dei mal. Eu e o Ratinho estávamos começando um serviço, apareceu a frestinha na porta, enfiei a mão pra destravar, aí apareceu um sujeito passeando com um cachorro policial, o covarde do Ratinho se mandou, sem a força dele a porta voltou pra trás e eu fiquei preso pelo cotovelo. Tentei de todo jeito me livrar, não consegui. A pressão no braço começou a prender o sangue, fiquei com medo, então não teve jeito: comecei a gritar socorro. Surgiu gente em tudo que é janela dos prédios no quarteirão.
      Um minutinho depois, eu estava rodeado por umas vinte pessoas. Uma velha berrava: “Esse bandido é o Washington, que me roubou faz cinco meses. Até hoje tiro dinheiro da aposentadoria pra pagar o som que você levou, viu, seu bandido? Esse aí, gente, não tem mais jeito, só bala resolve”. Um gordo respondeu: “Matar um garoto por causa de um aparelho de som? Em que mundo estamos, minha senhora? Pra isso existe a lei”.
      Aí chegou o dono do carro, e o tempo esquentou de vez. Quando viu a porta retorcida, ele quis me dar porrada. Uma mulher gritou: “Se encostar a mão nesse menino, eu te denuncio. Ele é uma vítima dessa sociedade cruel, desses nossos governos corruptos, da falta de emprego. Aposto que ele rouba pra matar a fome!”. Senti uma pontada de importância. A dona quase apanhou por minha causa. Claro que eu não disse pra ela que eu queria mesmo é um tênis Nike, superlegal, que vi na televisão. Tão legal que eu tinha de ter. Tinha de ter. Precisava pegar só uns sons pra comprar.
       A patrulhinha da polícia me salvou. O sargento desceu e foi logo dizendo: “Pô, Washington, você de novo?”. Ele fez que me levava pra casa, mas, como não tenho casa, me soltou três ruas pra cima, avisando: “Toma jeito, menino, senão ainda te enchem de bala”.

        Fiquei sabendo que apagaram o Ratinho com onze furos no fim de semana. Ele deu bandeira. Eu sempre achei que não tinha medo da morte, porque minha vida não vale nada, mas agora sei que tenho medo sim. Não quero acabar igual o Ratinho, mas não consigo parar de roubar, preciso da grana e da adrenalina. Só de pensar, eu sinto um frio na barriga. O pior é que eu não sei como sair dessa. 


Pouco tempo depois que publiquei esta crônica, em 1998, Washington foi encontrado morto. Também tinha 11 perfurações de balas. Acabara de completar 15 anos. Hoje estaria com 33.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Aterrissagem no meio do Himalaia

Estava a caminho de Leh, capital do Ladakh, na Índia, fronteira com Paquistão, China e Tibete. Zona conturbada. Bombas, ataques terroristas, brigas entre hinduístas e muçulmanos, ameaças atômicas entre Índia e Paquistão, milhares de refugiados tibetanos. No caminho, a bordo de um Boeing 737, a paisagem do Korakoram, uma das cadeias do Himalaia, me arrebatou. A beleza paga a viagem até Leh – e deixa troco. Sobrevoei quilômetros e quilômetros de picos nevados, agudos como se feitos ontem à noite, encostas íngremes, passos profundos, geleiras, canyons, vales, morenas. O paliteiro, de tão alto, quase espetava a fuselagem. Naquela vastidão branca, nunca se acharia um avião que tivesse a insensatez de cair. A beleza rude, até agressiva, pela insignificância que reduziu a mim e à máquina que me transportava, misturou fascínio e temor. Depois de me acostumar com a grandiosidade, percebi a graça do conjunto: o Korakoram é uma bandeja de suspiros saindo do forno. Suspiros de pedra e gelo.
De repente, um ponto ainda mais proeminente. É o K2, avisou o piloto, o segundo pico mais alto do planeta e o mais difícil de escalar. Com arrepios adicionais, dei-me conta de que estava longe de casa, perto do fim do mundo. Relaxei-me. O fim do mundo é lindo.
O frio na barriga triplicou quando enxerguei a pista de Leh, situada a 4000 metros de altitude e cercada por precipícios. Julguei impossível aterrissar um 737 na extensão de um campo de futebol. E, no final da pista, um monastério budista fazia as vezes de um gol. Nada disso. A construção estava mais para um goleiro que, em guarda sobre um morro, se dispunha a cercar tudo que viesse do céu ou da terra.
O piloto manobrou entre os cumes e, viciado em fortes emoções, literalmente deixou a aeronave despencar. Quando eu jurava que bateria no solo com a ponta da fuselagem, o Boeing ergueu o nariz. Tocou o asfalto já com os freios travados, porém com o dobro da velocidade aconselhável, assim me pareceu, impressionado pela rapidez com que rolávamos. Eu só pensava no danado do monastério cada vez mais perto e no susto dos monges budistas que, após o estrondo, encontrariam dentro de casa um bando de corpos irreconhecíveis.
O avião começou a tremer. Tremeram as cadeiras, como que arrancadas do suporte, tremeu o teto, tremeu o chão. As mesinhas dos assentos desprenderam-se, os bagageiros abriram-se, objetos caíram, um japonês levou uma garrafada na testa, a dor liberou seu pavor num grito agudo. Na cozinha, pratos espatifaram-se. O carrinho de bebidas se soltou, avançou sobre os passageiros. Duas aeromoças com os cintos afivelados se entreolharam, trocaram expressões de pânico. A mais despachada esticou a perna, calçou as rodinhas com o sapato, resolveu o problema.

Do lado de fora, chegava o urro ensurdecedor de metal contra metal, qual disco de freio de carro completamente desgastado. As turbinas assobiavam de tanto soprar o ar com fúria. Os flaps, eu os via a ponto de saltarem fora da asa. É o fim do mundo para mim, concluí. Vou virar churrasco.
No segundo anterior à tragédia, veio o cavalo de pau. O 737 rodopiou, cantou pneu, rangeu e, milagre!, ficou quietinho voltado para o terminal, resfolegante, pálido com a enorme descarga de adrenalina. O japonês com galo nascendo na testa bateu palmas. Todos a bordo o acompanharam. Aterrissar em Leh é emoção garantida. Beleza também.