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quinta-feira, 2 de julho de 2015

FUTUROLOGIA AO ALCANCE DE TODOS

     Não existe tarefa mais ingrata do que adivinhar o futuro. Todos erramos. Mesmo a ficção científica, apesar da boa vontade das gerações posteriores em dar crédito às previsões antigas, erra quase sempre. Por exemplo, muita gente enxerga na nave Apollo uma réplica da bala de canhão descrita por Júlio Verne em sua viagem à Lua. Um simples exame descarta a semelhança.
     Os futurólogos, entretanto, não se rendem. Afirmam que, se os desenhos são diferentes, os projetistas da Nasa se inspiraram nas ideias do autor francês, o que nos oferece um caminho para prever o futuro: basta imaginá-lo e obrigar a posteridade a executá-lo.
     Para começar, viagens à Lua são conjecturadas desde o tempo da Grécia antiga. Além disso, o futuro prometido não se realiza nem em assuntos pertinentes à Terra. Em política, por exemplo. Muita gente acreditou no Terceiro Reich e seus 1000 anos de domínio, assim como a Rússia comunista se julgou o melhor regime do mundo, tão bom, tão bom que seus dirigentes tentaram obrigar o Bolshoi a montar um balé para saudar a qualidade do esterco socialista, superior à de qualquer outro. No Brasil, desde minha infância, escuto que, no início do século 21, seríamos uma potência mundial. O Obama confirmou. Esqueceu-se de dizer do quê. De corruptos, semianalfabetos, manipuladores do povo?  
     A futurologia ainda não se emendou. Previsões continuam sendo feitas. Viagens a Marte em 2030, energia limpa e barata em 2035, contato oficial com ETs em 2050, inteligência artificial em 2060. Não mencionaram uma, mais provável: o apagão generalizado dos satélites artificiais, gerando colapso total da internet, graças a uma intensa atividade solar que poderia danificar a rede estratosférica mundial. Vamos olhar o lado positivo, se isso acontecer: não haverá programas de domingo à tarde na TV.
     Há previsões mais esdrúxulas, como o local exato da morada de Deus, a se concretizar lá pelo ano 2050. Depois que evangélicos divulgaram que cientistas, ao furar a crosta terrestre, escutaram os gritos do inferno, tudo é possível. Ouvi, também, que Jesus em pessoa estará, em breve, trazendo dentes novos para os banguelas. Parei de comprar dentifrício e cancelei o dentista.
     Nem a ONU escapou do furor futurólogo. Marcou para 2010 a erradicação da miséria no planeta. Errou. Aposto 100 contra 1 que, daqui a cinquenta anos, teremos famintos no globo. Se eu perder, e torço para isso, por favor cobrem de mim no cemitério. Eis uma previsão que não falhará: na época, estarei comendo grama pela raiz, o que desmonta meu raciocínio. A futurologia nunca erra nesse assunto. A longo prazo, todos estaremos mortos.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Tablets, foblets, goblets, goblins, gadgets e gente afobets

         Raramente um neologismo nos pegou com a força do tablet, essa varinha de condão que, com dois toques, coloca o mundo na palma de nossa mão. Tablet tornou-se arroz com feijão, graças a uma campanha de lançamento bem feita. Todas as mídias noticiaram a histeria consumista, alardeou-se até a escravidão em que os operários chineses seriam mantidos, para atender à surpreendente demanda. Ninguém questionou a exploração humana, todos queriam a geringonça, o novo gadget. O fenômeno se repete, ano após ano, a cada lançamento, a cada novo modelo que pouco muda.
        O Brasil aderiu ao modismo de corpo e alma. O governo ameaça, volta e meia, colocar o tablet na mochila de cada aluno da escola pública. Passa da hora. Os marqueteiros juram que, se você não comprar um, você vira ET. Por conta de seus gadgets, Steve Jobs perdeu todos os pecados e morreu santo e herói ecumênico. Enquanto isso, novas gerações de tablets chegam ao mercado, novas empresas os comercializam, novos nomes são inventados, surgem os foblets, muitos não vingam, todos se tornam goblets (Santo Graal para recolher dinheiro), as pessoas se sentem goblins quando não possuem o modelo mais atualizado.
          Já vi esse oba-oba antes. Muitas vezes. Aconteceu com tvs, vídeos, filmadoras, pcs, celulares, laptops etc. Desatento e induzido, comprei na afobação vários gadgets, completas inutilidades. Tenho pilhas de lixo eletrônico. Quanto ao tablet, todos possuirão um. Ele resolve problemas, inclusive o de carregar muitos livros numa viagem. Ainda mais agora que os modelos mais simples custam apenas 100 reais. Se funcionam, não sei, porém o preço comprova a tese de que logo todos terão um. Nem que seja para parecer moderno e deste mundo. Um mundo de neologismos e de quinquilharias digitais. Um mundo de gente afobets por gadgets que logo vão para o lixets.