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segunda-feira, 8 de junho de 2015

A rodada de pôquer que evitou uma guerra

Eu passava as férias num hotel em Puyehué, no Sul do Chile, na divisa com a Argentina. Tempo de ditaduras na América Latina. Tempo de tortura, disputa e arrogância. Num fim de tarde, a situação degringolou. De um lado e outro, os generais ameaçaram invadir e aniquilar os vizinhos. Ocupado com passeios com a família, eu ignorava que havia uma guerra iminente entre o Chile e a Argentina. Ao descobrir, estremeci, temendo virar picadinho, junto com os filhos. O gerente do hotel, para me tranquilizar e afastar qualquer possibilidade de perigo, convidou-me para um jogo de pôquer secreto, numa cabana perdida nas encostas dos Andes. Só descobriria quem eram os dois outros parceiros na hora do jogo. Ressabiado, aceitei.
O gerente e eu viajamos numa estrada de terra, quase atolando a cada dez metros. Após uma hora no meio da floresta, uma subida sem fim, chegamos à cabana. Nem bem nos assentamos ao redor de uma mesa feita com tronco de pinheiro, entra Carlos. Apresenta-se: é o comandante das forças armadas chilenas na região. Traz várias garrafas de Old Parr e Coca-Cola. Diz que o uísque fora confiscado de contrabandistas de fronteira e deveria ter sido enviado para Pinochet, mas, ele não entendia como, várias caixas tinham ficado para trás, e precisávamos consumi-las antes que perdessem a validade. Além disso, detestava Pinochet. Rindo muito, pediu minha ajuda para esvaziar a primeira garrafa. Imbuído de nobre espírito de latinidad, concordei. Carlos apreciava a bebida misturada ao refrigerante, meio a meio, um desperdício. A pecaminosa combinação tinha nome: chipe, ou algo parecido.
Ao final da terceira dose, escuto roncos de tanque de guerra. Começo da invasão? Delírio etílico? Nada disso. Num blindado leve, chega o misterioso companheiro que faltava. Pois não é que o dito cujo era justamente o comandante das forças argentinas? Os dois homens que, de acordo com os jornais e a boataria, deveriam trocar tiros e bombas no dia seguinte, passariam a noite jogando pôquer e bebendo uísque juntos. Tornaram-se amigos depois de apresentados por Fernando, o gerente do hotel, em sua festa de aniversário. A amizade, entretanto, não podia se tornar pública, senão lhes comprometeria a carreira nas forças armadas, ainda mais diante do clima de tensão existente entre Santiago e Buenos Aires. Daí tanto segredo, daí a preferência por estranhos, sobretudo estrangeiros, para completar o quarteto de blefadores.
Jogamos até a madrugada, enquanto nos divertíamos com piadas e casos de nossos três países. Levantamos os copos a cada gargalhada. Juanito, o militar argentino, morreu de rir quando lhe contei que seus compatriotas, para suicidar, pulam do alto de seus egos. 
Ajudados pela mediação escocesa, reviramos nossa latinidad, nosso caldo cultural com idênticos temperos, nossas raízes comuns, nossos mesmos tiques, nossas visões sobre a vida que, no fundo, coincidiam.
A guerra entre o Chile e a Argentina jamais aconteceu. Perdeu o ímpeto, pois os dois protagonistas se uniam numa mesa de pôquer, regada a uísque confiscado.
Para mim a Rodada de Puyehué teve gosto especial: ganhei dos três.          



domingo, 31 de maio de 2015

Três pesquisadores que experimentaram quase todas as drogas

         Você já ouviu falar do oliliuqui? E do peyote? E da ayhuasca ou yagé? E da folha divina da imortalidade? Pois todos esses nomes se referem a plantas alucinógenas usadas pelos índios da América Latina para entrar em contato com seu universo interior ou com seus deuses. Para pesquisá-las, três gerações de botânicos da Universidade de Harvard percorreram nosso continente, enfrentaram todo tipo de perigo e doença. Descobriram como essas drogas atuam. Para retratá-las com precisão, eles experimentaram quase todas e relataram os efeitos sobre seus corpos e mentes. Um barato que, às vezes, saiu caro.
          Essa aventura louca, que põe Indiana Jones no chinelo, aparece no livro El Rio, de Wade Davis, etnobotânico e documentarista canadense. El Rio, ou One River no original, infelizmente não foi traduzido para o português, mas merece. É ótima leitura. Além de resgatar as aventuras de Richard Schultes, Tim Plowman e do próprio Wade Davis nas selvas, também realiza amplo levantamento da cultura e da história de países latinos e de tribos indígenas. Por exemplo, ao mergulhar no ciclo da borracha, descreve o apogeu de Manaus, quando os perdulários milionários da cidade, para ter seus lençóis bem branquinhos, mandavam lavá-los na Europa. Lembra como as sementes de nossa seringueira foram contrabandeadas para a Ásia e como os norte-americanos fazem biopirataria usando o nome da ciência. Conta como tribos inteiras foram chacinadas pelos europeus, sobretudo espanhóis. Ao todo, quase 30 milhões de pessoas.
          Mostra, ainda, outro tipo de extermínio, perpetrado por religiosos que, em nome da salvação, dizimaram muitos povos e suas culturas. Revela que dois presidentes dos Estados Unidos, vários artistas e Freud se tornaram consumidores de coca. O papa Leão XIII até condecorou o inventor de uma bebida, o Vinho Mariani, feito com a planta. Aliás, a coca é, até hoje, importada legalmente nos Estados Unidos pela Stepan Chemical Company, empresa que repassa um de seus extratos para a Coca-Cola, originalmente um remédio vendido em farmácia como vinho francês de coca. O que mudou?

          Tudo isso e muito mais você encontra em El Rio ou One River, de Wade Davis. Livro delicioso, apaixonado, apaixonante, imperdível. Se tiver oportunidade de lê-lo, faça-o. Você não sairá ileso das águas desse rio.